Não se pode escapar do consumo: faz parte do seu metabolismo! O problema não é consumir; é o desejo insaciável de continuar consumindo. As relações humanas são sequestradas por essa mania de apropriar-se o máximo possível de coisas. (Zygmunt Bauman).
Os tempos mudam, o mundo do trabalho mudou e certamente as coisas hoje são como são, em decorrência de um encadeamento de motivos históricos.
Você sabia, por exemplo, que os trabalhadores conseguiram mudar as condições sub humanas de trabalho geradas pela Revolução Industrial e obter um aumento do seu tempo livre, não apenas por meio dos movimentos trabalhistas organizados, mas também, pelos interesses econômicos do próprio setor produtivo?
É isso mesmo, o quadro foi alterado pela necessidade de se formar novos quadros de consumidores.
Ou seja, para que houvesse produção em massa, era preciso gerar consumidores em massa. Para isso, os salários deveriam ser aumentados para garantir o poder de compra. Com os salários em alta, esses novos consumidores necessitavam de tempo livre: para gastar. E, então, a jornada de trabalho foi reduzida (GAWRYSZEWSKI, 2003).
Bem, mas você deve estar pensando: e o que há de mal nisso? O trabalhador foi beneficiado financeiramente, além de ter mais tempo para o descanso e lazer, para cuidar de si e da família, para cuidar da saúde e ter prazer.
Sim e não! Pois o sistema nos condicionou a pensar que a vida só tem valor quando representa alguma oportunidade de consumo, e esta premissa passou a se configurar como a mola propulsora da produção que, para aumentar, precisa de mais consumo e consequentemente de mais pessoas dispostas e “aptas” a consumir. As bases de convencimento são tão fortes que, acabam por nos persuadir que a felicidade está relacionada ao ter.
Somos todas vítimas de uma ideologia, que se tornou para muitos um ideal de vida. E, nesse movimento, a sociedade vai esquecendo de sua necessidade de momentos de contemplação, reflexão e participação, e segue vivendo sob o jugo de um sistema de opressão onde tudo e todos são transformados em mercadoria.
Com o desenvolvimento tecnológico, esperava-se que o homem pudesse desfrutar de um tempo significativo dedicado ao descanso, ao prazer, ao ócio e a qualidade de vida, afinal esta sempre foi a promessa da tecnologia.
As TICs, que deveriam nos poupar tempo, na verdade, passaram a ocupar ainda mais nosso tempo e a nos tornar disponíveis, em qualquer horário ou lugar. Em virtude disso, o tempo foi-se tornando cada vez mais curto, enquanto maior tornou-se a necessidade de se caminhar com passos cada vez mais largos.
Corremos contra o relógio, mantemos a agenda cheia, comemos a qualquer hora (ou a hora que der), qualquer coisa (ou o que estiver mais acessível, ou ainda o que mais nos seduzir) e em qualquer lugar (ou no lugar que mais nos atrai ou que mais atrai nossos filhos pelas cores, associações, moda…); e acreditamos que deve ser assim.
Aliás, alguma coisa parece estar errada quando não é assim. Sentimo-nos alienados, perdendo espaço no mercado de trabalho, menos importantes, ultrapassados, obsoletos ou deixados de lado.
Não temos tempo para participar, discutir, contestar ou questionar temas importantes da vida em sociedade.
Lemos superficialmente as notícias, raramente conversamos com os vizinhos, mal temos tempo para uma conversa presencial com os colegas. Dificilmente ocupamos cargos em conselhos ou associações (de moradores, bairro, condomínio), por prazer ou desejo de mudança. Normalmente o fazemos (quando o fazemos) por falta de outras pessoas para ocupá-los.
Se condeno o consumo ou o conforto? Claro que não! Como nos diz Bauman, eles fazem parte do nosso metabolismo, portanto, gosto deles. Apenas entendo que devemos reservar um pouco de nosso “precioso e tão disputado tempo” para refletir sobre uma avalanche que está nos soterrando quase sem percebermos.
Defendo uma urgente reflexão sobre o “processo de coisificação que sofremos por nos constituirmos apenas em mercado consumidor para os grandes conglomerados do sistema” (GAWRYSZEWSKI, 2003, p. 3). E tenho convicção de que precisamos reorganizar o nosso tempo, as nossas prioridades, revisar nossos valores e conceitos e revisitar nosso senso de coletividade e responsabilidade toda vez que nossa consciência insistir na necessidade em dizer: não tenho tempo!