Zahyra Mattar
Tubarão
Consideradas algumas das mais importantes conquistas da medicina e da pediatria em particular, as vacinas tornaram-se alvo de um movimento opositor considerado extremamente perigoso pelo governo brasileiro.
O excesso de vacinas, desconfiança com suas possíveis reações colaterais e pressão da indústria farmacêutica são alguns dos motivos que levam muitos pais e mães a decidirem não vacinar os filhos.
Mesmo com o histórico incontestável de fazer com que várias e graves doenças tenham sido erradicadas pelas vacinas, existem pessoas que acreditam que o organismo torna-se preguiçoso por receber a imunidade pronta.
“Algo absolutamente inverídico. O papel da vacina é justamente provocar o organismo para que ele se defenda”, desmistifica Vanessa Vieira da Silva, gerente de vigilância de doenças imuno-previníveis e imunização da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive) de Santa Catarina.
Esse movimento antivacina entrou no radar do governo quando uma pesquisa encomendada pelo Ministério da Saúde detectou que a média da vacinação no Brasil era de 81,4%, enquanto na classe A era de 76,3%.
A facilidade em buscar informação, em especial na internet, tornou-se um contraponto no que tange à saúde pública. Isto porque a maioria das referências não é médica, mas sim de achismos, de blogs e opiniões pessoais.
“Santa Catarina tem uma situação privilegiada em relação ao restante do Brasil, pois possuímos altos índices de cobertura nas campanhas e fora delas. Mas, assim como o Ministério da Saúde, o estado vê este movimento antivacina com muita preocupação. Quando os pais deixam de vacinar seus filhos, muitas outras crianças podem pagar esta conta”, alerta Vanessa.
Ainda dentro desta visão ampla, é necessário pontuar que a maior parte dos jovens pais que combatem as vacinas jamais se defrontou com um paciente real dessas doenças ao longo da vida, provavelmente devido à eficácia das imunizações que eles receberam quando pequenos.
O surto de Vila Madalena
Diferente de outros países, onde surtos de doenças consideradas erradicadas, como caxumba, sarampo e catapora, são considerados perigosos, no Brasil, o caso que se tornou um ícone do movimento antivacina data de 2011.
O surto de sarampo ocorrido em Vila Madalena (SP) não se repetiu por causa da ação rápida dos profissionais da saúde. Após ampla investigação, descobriu-se que a proliferação da doença começou com uma criança não vacinada por opção da família.
Vários bebês menores de 1 ano ficaram doentes, alguns em estado grave, pois a vacina só é indicada após essa idade. “O principal neste debate é ter em mente que esta decisão (a de não vacinar) pode trazer consequências devastadoras para o filho dos outros e ainda abrir portas para o retorno de doenças já erradicadas, como a poliomielite”, atenta Vanessa.
Gerente de vigilância de doenças imuno-previníveis e imunização, Vanessa vê o movimento antivacinas com preocupação. – Foto: Dive-SC/Divulgação/Notisul.
O Brasil é exemplo mundial quando o assunto é imunização. O país possui o calendário de vacinação mais completo que existe no mundo. Além disso, todas as doses são distribuídas na rede pública gratuitamente.
“Dr Fraude”
Desde o fim do século 18, quando o médico inglês Edward Jenner criou a primeira vacina contra a varíola, há quem se oponha à aplicação do tratamento preventivo. O movimento opositor de hoje é, em partes, fruto do estudo fraudulento publicado, em 1998, pelo médico britânico Andrew Wakefield.
Ele relacionou a vacina tripla viral (contra o sarampo, a rubéola e a papeira) com o autismo e uma doença gastrointestinal. Somente em 2009, após uma ampla investigação, descobriu-se que Andrew manipulou os resultados para simular o elo entre a vacina e o autismo.
O Conselho Geral dos Médicos do Reino Unido chegou a expulsar o clínico, mas o estrago já estava feito. Embora refutado, as dúvidas semeadas no relatório continuam a pairar hoje em dia e servem de pano de fundo para movimentos antivacinas em todo o mundo.
Calendário Básico
1 A primeira dose da vacina contra a hepatite B deve ser administrada na maternidade, nas primeiras 12 horas de vida do recém-nascido. O esquema básico se constitui de três doses, com intervalos de 30 dias da primeira para a segunda dose e 180 dias da primeira para a terceira dose.
2 O esquema de vacinação atual é feito aos 2, 4 e 6 meses de idade com a vacina Tetravalente e dois reforços com a Tríplice Bacteriana (DTP). O primeiro reforço aos 15 meses e o segundo entre 4 e 6 anos.
3 É possível administar a primeira dose da Vacina Oral de Rotavírus Humano a partir de 1 mês e 15 dias a 3 meses e 7 dias de idade (6 a 14 semanas de vida).
4 É possível administrar a segunda dose da Vacina Oral de Rotavírus Humano a partir de 3 meses e 7 dias a 5 meses e 15 dias de idade (14 a 24 semanas de vida). O intervalo mínimo preconizado entre a primeira e a segunda dose é de 4 semanas.
5 A vacina contra febre amarela está indicada para crianças a partir dos nove meses de idade, que residam ou que irão viajar para áreas endêmicas (estados: AP, TO, MA MT, MS, RO, AC, RR, AM, PA, GO e DF), áreas de transição (alguns municípios dos estados: PI, BA, MG, SP, PR, SC e RS) e área de risco potencial (alguns municípios dos estados BA, ES e MG). Se viajar para áreas de risco, deve-se vacinar contra febre amarela dez dias antes da partida.
