Início Opinião 3ª Conferência sobre igualdade racial

3ª Conferência sobre igualdade racial

Proferi, com satisfação, palestra magna na III Conferência Macrorregional sobre Igualdade Racial, em Tubarão, no dia 24 de agosto de 2013.
 
Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2009-2010 (UFRJ) informa o agravamento de tal situação. Em 2008, quase metade das crianças afrodescendentes de 6 a 10 anos estava fora da série adequada, contra 40,4% das brancas. E, na saúde, subiu a proporção de afrodescendentes mortas por causa da gravidez ou suas consequências.
 
Embora em maioria – desde 2010, o número de negros ultrapassa o de brancos no Brasil, segundo o IPEA –, homens e mulheres negras permanecem, majoritariamente, na base da pirâmide social brasileira. São 70% dos 16 milhões de brasileiros que estão abaixo da linha da pobreza ou que vivem com menos de 1dólar por dia.
 
Isto se deve ao fato de homens e mulheres negras serem menos inteligentes? Dois ícones da intelectualidade brasileira, nascidos em Santa Catarina – Cruz e Souza (1861-1898) e Antonieta de Barros (1901-1952) – provaram o contrário.  Ele foi o maior poeta simbolista do Brasil, e ela, deputada estadual catarinense, numa época em que aos negros eram negadas, também, as letras. Para ambos, contudo, houve incentivo. Quer dizer, a inteligência não tem relação com a cor da pele, mas com a vivência em situações intelectualmente ricas.
 
E o que se pretende com tais Conferências? “O pleno e respeitoso exercício das diferenças”. Pesa sobre homens e mulheres negras o preconceito, devido à cor da pele e à raça, que, para 71% dos brasileiros entrevistados pelo IBGE (2008), exercem efeitos no mercado de trabalho e, para 68,3%, com a polícia e com a Justiça. Ou seja, estamos muito distantes de concretizar o sonho que Martin Luther King Jr. anunciou há exatos 50 anos, em discurso para mais de 250 mil pessoas no Memorial de Lincoln, em Washington: “chegará o dia em que as pessoas serão avaliadas pelo caráter e não pela cor da pele”.
 
Contribuem para depreciar e excluir, além do preconceito, que gera autopreconceito, os péssimos serviços públicos, devidamente denunciados nas manifestações de rua que estremeceram o Brasil em junho deste ano.
 
No que se refere à Educação, não basta melhorar os prédios. É fundamental desmontar os mecanismos de discriminação, que inferiorizam, acomodam e dificultam a aprendizagem. Possível com a aplicação da Lei 10.639/03, que há dez anos alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), mas não é cumprida. Garantia do acesso de todos, desde a infância (Lei nº 12.796/2013) – para oportunizar que pais possam trabalhar, e as próximas etapas da escolaridade sejam facilitadas – e da permanência, com sucesso, por meio de epistemologia didática favorável ao aprendizado de todos e não apenas de alguns.
 
É essencial ainda que se implemente ampla campanha com atendimento preventivo de saúde (mais médicos, consultas, exames, leitos etc.). é imprescindível encaminhar à justiça os casos de preconceito (lei nº 9459/13/05/1997). faz-se necessário discutir as cotas como reparação (Unesco, conferência de Durbam, 2001) e modelo de desenvolvimento concomitante: financeiro, ambiental e das pessoas, ou triple bottom line. são medidas humanitárias, preventivas, mais baratas e mais eficientes. O único custo é conviver com os diferentes ou o preço da sustentabilidade social comprometida.
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