Início Opinião A Gripe “A”, Edgar Hernandes e a economia catarinense

A Gripe “A”, Edgar Hernandes e a economia catarinense

Em La Glória (distrito de Perote, Estado de Vera Cruz, no México, a dez quilômetros de distância da gigantesca criação de porcos da empresa mexicana Granjas Carroll de Mexico, subsidiária da Smithfield Foods – a mesma que se instalou em Diamantino, em Mato Grosso), um menino de 4 anos, Edgar Hernandes, adoeceu. Ele veio a ser chamado “o paciente zero”, pois talvez o seu organismo tenha sido o primeiro receptor humano do vírus suíno. Antes do alerta oficial da OMS, emitido em 2009, já em dezembro de 2008 havia sido constatada nesta zona do México uma gripe desconhecida, que se espalhava rapidamente. Os moradores de La Glória – muitos deles trabalhadores da Carroll – não duvidam que é a granja que está na origem da Pandemia.

Em Itajaí e no oeste catarinense, assistimos a criação de uma empresa brasileira que visa concorrer em “pé de igualdade” com a Smithfield Foods no mercado internacional, a nossa Brasil Foods.
Longe de mim opinar sobre esse segmento da economia que representa o sustento de tantas famílias catarinenses, seja no Vale do Itajaí, no Vale do Braço do Norte ou no oeste catarinense, porém, o que é minha obrigação depois de ter trabalhado tão intensamente na parte mais suja da suinocultura, o chamado “tratamento de dejetos”, seja a partir da experiência de Braço do Norte, seja a partir da experiência de Xavantina, é deixar meu registro sobre o “efeito Orloff” da gripa “A”.

Em La Glória, no México, os moradores não passaram a falar mal da empresa que tanto representa para a economia daquela região, no entanto, todos eles, sem exceção, sabem que tamanha concentração de animais confinados em um ambiente onde tudo gira em torno de se conseguir produzir o máximo de carne com o mínimo de milho e soja, é a causa principal da resistência de um vírus mutante que, mesmo desenvolvida a vacina, sofrerá nova mutação (quem conhece biologia sabe que, em grandes concentrações se formam cópias virais e seu material genético, o RNA, gera mutações espontâneas, ou seja, não se copia exatamente da mesma forma. Quando esse RNA é estimulado por medicação que não controla totalmente a replicação, como se trata de um vírus mutante, ele se torna resistente. A mutação do vírus se dá pela cápsula externa que tem duas proteínas: Hemaglutina (H) e Neuraminidase (N), mudando as características infecciosas do ser vivo, o vírus).

Da mesma forma, não espero que os moradores dos Vales do Itajaí e do Braço do Norte, assim como do oeste catarinense, comecem a falar mal da agroindústria que representa “a vida” daqueles que lutaram tanto para que sejamos reconhecidos na chamada Organização Internacional de Epizootias (OIE), com o título valiosíssimo de Zona Livre de Febre Aftosa Sem Vacinação, no entanto, deixo com vocês o pensamento que tirou meu sono no dia de hoje: até quando nossos salários serão mais importantes que os nossos filhos?

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