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Amy Winehouse

 

A prematura, porém previsível, morte da cantora deixa uma lacuna na cena musical do mundo. Sua voz vibrante e inconfundível trouxe de volta o vigor do soul, funk e jazz dos anos 1960 e 70. Mas seu comportamento destemperado e a vida totalmente desregrada também fizeram reviver outros ícones da música, ceifados precocemente, graças à combinação de álcool, entorpecentes e a incompatibilidade com o mundo e seu tempo. Muitos artistas optaram por aquilo que chamamos de suicídio inconsciente. Incapazes de tomar a mesma atitude de Kurt Cobain, astro do Nirvana, o qual cometeu suicídio também aos 27 anos, passam a possuir hábitos e comportamentos possíveis de propiciar-lhes a morte tão desejada. Esse foi um expediente muito comum entre os poetas da segunda geração romântica do século 19.
 
O líder da banda Legião Urbana, Renato Russo, retratou bem esse dilema em uma de suas canções na figura de João Roberto. Um jovem desiludido por uma paixão provoca sua própria morte em um racha inconsequente. Anos mais tarde, o mesmo Renato buscou esse caminho ao apresentar os primeiros sinais de estar doente de Aids. Evitou qualquer tipo de tratamento, fechando-se em casa para morrer sozinho. Cumpria a máxima de outra composição sua: “Os bons morrem cedo”. Anos atrás, assistimos perplexos ao falecimento de Cássia Eller. Outra perda artística irreparável, vítima da insanidade das drogas.
 
Alguns afirmariam que morrer no auge seria uma forma de perpetuar-se como símbolo de seu tempo. Premissa possivelmente verdadeira e fácil de ser concebida por mentes tão alucinadas pela fama e pelo mercado de consumo. Impossível afirmar o que é mais maléfico: os efeitos nefastos das drogas ou a submissão da vida pessoal às exigências do show bisness. Os aspectos em torno da morte de Michael Jackson são provas cabais do nível de pressão ocasionada pelo sucesso. Amy sempre reagiu de forma agressiva a todo esse assédio desarrazoado. Fora incompreendida. Seu desequilíbrio era um pedido de socorro.
 
O clipe da música Back to Black pode ser encarado como um prenúncio do fim, talvez um roteiro a ser interpretado na vida real. Muito ainda se ouvirá sobre o legado de Amy. Sem dúvida, virará tema de filme premiado, mais uma vez a serviço do efêmero consumismo. No entanto, refletir sobre a importância de desenvolvermos junto a nossos jovens valores mais consistentes para a vida torna-se indispensável. Os prognósticos negativos sobre um futuro de crises e falta de oportunidades pode criar uma geração até talentosa, porém vazia de ideias e objetivos. Presas fáceis do mundo fortuito das drogas, cada vez mais potentes e devastadoras. Longe de fazer julgamentos, o exemplo de Amy deve servir de alerta para redefinirmos nossas relações de consumo e sociedade.
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