FOTO PML Divulgação Notisul
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Muito antes de ser fundada, Laguna já ocupava um lugar estratégico na história mundial. Em 7 de junho de 1494, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Tordesilhas, acordo que dividiu as terras recém-descobertas entre as duas coroas ibéricas por meio de uma linha imaginária traçada de norte a sul do planeta.
No atual território brasileiro, essa linha cruzava o litoral em dois pontos: próximo à região de Belém, no Norte, e na área onde séculos depois surgiria Laguna, em Santa Catarina. Antes mesmo de existir como cidade, o local já figurava nos mapas europeus como um dos limites da expansão portuguesa na América.
O acordo que dividiu o planeta
O Tratado de Tordesilhas foi firmado dois anos após a chegada de Cristóvão Colombo ao continente americano. Com Portugal e Espanha disputando as novas terras e as rotas marítimas, as duas coroas decidiram negociar para evitar conflitos.
Inicialmente, o papa Alexandre VI havia estabelecido uma divisão por meio da bula Inter Coetera. Portugal, no entanto, considerou a proposta desfavorável e conseguiu renegociar os limites. O novo acordo deslocou a linha divisória para 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde, garantindo aos portugueses uma faixa maior do território que futuramente formaria o Brasil.
Embora jamais tenha sido demarcada fisicamente, essa linha influenciou diretamente a ocupação da América do Sul.
Laguna nasceu como uma fronteira estratégica
Durante quase dois séculos, o atual território de Laguna representou, nos mapas europeus, o extremo sul da América portuguesa. Ao sul começavam as possessões espanholas.
Essa posição tornou a região estratégica para a Coroa Portuguesa, que buscava consolidar sua presença e impedir o avanço espanhol rumo ao litoral catarinense e à região do Rio da Prata.
Foi nesse contexto que Domingos de Brito Peixoto chegou à região em 29 de julho de 1676, liderando um grupo de colonizadores com a missão de fundar um povoado permanente.
Devoto de Santo Antônio, ele batizou o núcleo de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, origem da atual cidade.
Uma cidade que deu origem a outras regiões
O território original de Laguna era muito mais amplo do que os limites atuais. Ao longo dos séculos, dele surgiram diversos municípios do Sul do Brasil.
A ocupação da região também contribuiu para a consolidação da presença portuguesa no litoral sul, desempenhando papel importante na formação territorial que mais tarde daria origem a importantes centros urbanos da região.
A linha que nunca existiu no chão
Apesar de sua importância política, o Tratado de Tordesilhas enfrentava um problema prático: no século XV ainda não existiam instrumentos capazes de determinar com precisão a longitude.
Na prática, portugueses e espanhóis frequentemente ultrapassavam os limites estabelecidos sempre que seus interesses avançavam sobre novos territórios.
As divergências permaneceram até 1750, quando o Tratado de Madrid substituiu Tordesilhas e passou a utilizar acidentes geográficos, como rios e montanhas, para definir as fronteiras entre os domínios portugueses e espanhóis na América.
Um marco preservado na cidade
Mesmo sem jamais ter sido desenhada no terreno, a linha de Tordesilhas permanece viva na memória histórica de Laguna.
No Centro Histórico, próximo ao Terminal Rodoviário, um monumento em granito lembra que o município ocupou um dos pontos mais simbólicos da divisão do mundo colonial. A obra foi inaugurada em 7 de junho de 1975, em homenagem aos 481 anos do tratado, e foi projetada pelo arquiteto e historiador suíço Wolfgang Ludwig Rau.
Rumo aos 350 anos de Laguna
Em 29 de julho de 2026, Laguna celebra 350 anos de fundação. Ao longo desse período, a cidade deixou de ser apenas uma fronteira estratégica para se tornar um importante patrimônio histórico e cultural de Santa Catarina.
Com ruas de pedra, casarões coloniais, a Igreja Matriz, o Farol de Santa Marta e um legado marcado por personagens e acontecimentos históricos, Laguna preserva até hoje a herança de um passado que começou muito antes da sua fundação oficial.
Esta reportagem integra a série especial “Laguna 350 Anos”, que ao longo do mês de julho apresenta episódios marcantes da formação histórica, cultural e econômica do município.
