35 pessoas permanecem abrigadas em um salão no bairro de Cabeçuda à espera de alguma solução.
Willian Reis
laguna
Desde a execução da ação de reintegração de posse na última quarta-feira que pôs fim ao Loteamento Novo Horizonte, considerado irregular pela justiça de Laguna, dez famílias ainda não têm para onde ir. Por enquanto elas seguem abrigadas na Associação Comunitária Beneficente Cabeçuda (ACBC), cedida pela Paróquia São Pedro Apóstolo por dez dias. O prazo encerra no fim de semana, mas ninguém sabe o que fazer a partir de então.
Os desabrigados chegaram ao local após uma conversa de membros do Escritório Modelo Troca de Saberes (Emtrosa), do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro de Educação Superior da Região Sul da Udesc, em Laguna, com o padre Bantu Mendonça Katchipwi Sayla, pároco de Cabeçuda. O religioso, então, aceitou dar abrigo às famílias por, no mínimo, dez dias, até comunicar a situação às demais lideranças do bairro.
Eles sobrevivem de doações. São roupas, colchões, cobertores e alimentos, entre outros itens, fornecidos por moradores de cidades como Laguna, Pescaria Brava e Tubarão. As 16 comunidades que formam a Paróquia São Pedro Apóstolo também estão enviando mantimentos. Na semana passada, o prefeito de Pescaria Brava, Deyvisonn de Souza, encaminhou cestas básicas, roupas, fraldas, água e outros produtos, além de uma assistente social.
Na associação, as dez famílias vivem em meio ao que conseguiram guardar antes da reintegração de posse. No mesmo local estão crianças e idosos, muitos dos quais vindos de outras regiões do país, sem nenhum parente em Laguna.
Regras organizam rotina no abrigo provisório
Para facilitar a convivência, foram criadas algumas regras. Fixadas nas paredes, folhas escritas à mão avisam que a porta de acesso ao local será aberta às 6h e fechada às 23h, além de estabelecerem os horários das refeições. Todos se ajudam, mas na parede também está a escala com a função que cada um deve cumprir, da limpeza diária ao preparo das refeições. “Já demos graças a Deus por achar um lugar para ficar. Agora tem que respeitar os direitos dos outros, não tem que fazer bagunça aqui”, comenta Milza Maria Senra.
Ela está no abrigo com o marido Renato dos Santos e a sogra Maria da Glória dos Santos. Milza afirma que a prefeitura lhe ofereceu uma passagem para a sua cidade de origem, Rurópolis, no Pará. Não aceitou porque não tem mais família no Norte, nem local para permanecer por lá. “Vim para cá só com a roupa do corpo. Ganhei cama, colchão. A nossa sorte foi o padre, que teve compreensão”, agradece Milza.
A paraense conta que ontem de manhã precisou levar a sogra no posto de saúde do bairro, devido a uma dor no estômago, mas que uma funcionária não quis atendê-las porque não tinham nenhum cadastro. Após a reclamação de Milza, o médico consultou.
Caso parecido ocorreu com Sérgio Pereira, que foi à Policlínica buscar remédios para sua filha de 1 mês. Ele afirma que foi informado no local de que não teria acesso aos medicamentos porque a família não tem endereço fixo em Laguna. Algumas pessoas da igreja se reuniram e conseguiram comprá-los. “Parece que a gente é animal. Não tem nem direito a atendimento na rede pública”, reclama sua mulher, Eunice Teixeira. Como todos ali, eles não têm para onde ir. “Vamos ver o que eles vão fazer. Se não tiver solução, a gente vai para a frente da prefeitura”, avisa ela.
Desabrigados podem ter vagas na Frente de Trabalho

Desempregado, Aildo de Sousa Moreira morava com a mulher, Izeleide da Silva, no loteamento desde 2014. Ele conta que também recebeu a oferta de uma passagem de volta para sua cidade natal, Imperatriz, no Maranhão. Com dificuldades para enxergar, Izeleide tem problemas mentais e precisa estar sempre acompanhada do marido. “Agora a gente está aqui, querendo outra casa para morar”, diz Moreira.
O prefeito Mauro Candemil alega que o município já cadastrou estas famílias. As que estiverem em elevada situação de vulnerabilidade irão receber o aluguel social. Além disso, tramita na Câmara um projeto do Executivo que abre para as famílias dez vagas na Frente de Trabalho, em contrato de no máximo dois anos. As famílias tiveram de deixar o terreno, que pertence à Companhia de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (Codesc), após liminar da justiça expedida em dezembro.