Víctor Daltoé dos Anjos
Geógrafo / UFSCs
victordaltoe@gmail.com
Refugiados se defrontam com grandes cidades destruídas, o mar e o deserto. Tudo isso enquanto, às suas costas, tanto o exército nacional como guerrilheiros cometem atrocidades e destroem a economia local. O palco dessa tragédia é o Iêmen. Segundo a ONU, 18 milhões de pessoas do país já não sabem de onde sairá a próxima refeição do dia. É “a pior fome do mundo em 100 anos”.
O Iêmen é o país mais úmido da Península Arábica, uma região extremamente seca. No início da Era Cristã, o geógrafo Ptolomeu chamou o atual país de “Arábia Feliz”. A parte norte do atual país conquistou a independência em relação aos Estados muçulmanos vizinhos ao longo dos milênios, com capital em Sanaa, enquanto a parte ao sul do Iêmen passou os séculos como um entreposto dominado pela Inglaterra, com sede em Áden.
Em 1962, no Norte foi proclamada a República Árabe do Iêmen, primeira república na península, comandada por um governo nacionalista e autoritário, o que gerou a rivalidade de todos os Estados monárquicos e conservadores da região, como Arábia Saudita e Qatar. A situação piorou em 1968, quando o Sul, até então dominado pela Inglaterra, foi tomado por um grupo de orientação marxista, proclamando um regime socialista, gerando ainda mais tensão para com os vizinhos e também o Iêmen do Norte.
O cruzamento entre nacionalismo pan-arabista, comunismo, rivalidades entre xiitas e sunitas, além das conspirações e complôs das monarquias árabes e do Egito fizeram com que a unificação do Iêmen tenha se arrastado por décadas, se concluindo apenas nos anos 1990. Entretanto, a dificuldade em manter a coesão nacional pavimentou a estrada do autoritarismo, o qual emergiu com a ditadura de Ali Saleh nos anos 2000.
A guerra civil atual se iniciou com a queda do ditador em 2011. Rebeldes xiitas lutam pelo domínio do norte com o apoio do Irã, guerrilheiros defendem a separação do Iêmen do Sul, e o próprio exército nacional se encontra dividido em facções rivais, sendo uma apoiada pela Arábia Saudita, que interveio militarmente no país. Enquanto isso, a comunidade internacional ignorou em parte o Iêmen, um país muito mais pobre que a Síria, por exemplo, e com pouquíssima capacidade de se manter de pé em um conflito de tão grandes proporções.
Os ingredientes adicionados no caldo da política iemenita ao longo do século XX, como nacionalismo exacerbado e fundamentalismo religiosa ainda dão dor-de-cabeça à comunidade internacional, enquanto seus cidadãos erguem as mãos aos céus no desespero da fome no deserto.