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A dinâmica do mercado de trabalho brasileiro sofreu uma transformação profunda na última década com a ascensão da chamada “gig economy”. O uso do veículo particular como ferramenta de geração de renda deixou de ser uma atividade complementar para se tornar a fonte principal de sustento de milhões de famílias.
Nesse cenário, o automóvel deixa de ser apenas um bem de consumo e assume o papel de um ativo empresarial que exige uma gestão rigorosa.
Para o motorista profissional, a equação financeira é complexa. O faturamento bruto obtido com as corridas ou entregas é constantemente corroído pelos custos operacionais: combustível, manutenção, depreciação e proteção. A viabilidade do negócio depende, portanto, da capacidade do proprietário de minimizar esses custos sem comprometer a segurança e a qualidade do serviço.
Escolha do veículo com foco no Custo Total de Propriedade (TCO)
O primeiro passo para a rentabilidade é a escolha do ativo. O erro mais comum é focar apenas no preço de compra ou na estética do veículo. Para o trabalho, a métrica correta é o Custo Total de Propriedade (TCO). Isso envolve calcular o consumo de combustível (km/l), o custo da cesta básica de peças, a facilidade de revenda e a durabilidade do conjunto mecânico.
Veículos robustos, com motores de fácil manutenção e alto rendimento energético, são os mais indicados. Ao pesquisar qual é o melhor carro para aplicativo, o condutor deve priorizar modelos que equilibrem conforto para o passageiro (espaço interno, ar-condicionado eficiente) com a economia de combustível para o operador.
Geralmente, sedãs compactos e hatches de entrada com motores 1.0 ou 1.3 costumam oferecer o melhor equilíbrio entre esses fatores.
Implementação de um plano de manutenção para uso severo
Um carro utilizado para trabalho opera sob o regime de “uso severo”. Diferente do uso doméstico, onde o veículo roda poucos quilômetros por dia em estradas livres, o carro de trabalho enfrenta o trânsito urbano intenso, o “anda e para” constante, o excesso de carga e o funcionamento prolongado em marcha lenta — acelerando drasticamente o desgaste de componentes vitais.
A gestão da manutenção não pode seguir os prazos padrão do manual para uso normal. O óleo do motor, por exemplo, deve ser trocado com maior frequência, pois perde suas propriedades de lubrificação mais rapidamente sob altas temperaturas e uso contínuo.
Ignorar a manutenção preventiva em favor da corretiva é uma decisão financeira desastrosa, pois o tempo de ociosidade do veículo na oficina significa receita perdida (lucro cessante).
Análise das opções de proteção: o seguro tradicional e proteção veicular
O risco é inerente à profissão. Um motorista de aplicativo ou entregador passa, em média, de 8 a 12 horas por dia exposto ao trânsito, o que aumenta exponencialmente a probabilidade de colisões, furtos e roubos em comparação com um motorista comum.
Aqui surge um dilema financeiro: o seguro tradicional para veículos de uso comercial costuma ter prêmios elevadíssimos, pois as seguradoras precificam esse risco de exposição de forma agressiva.
É neste ponto que a proteção veicular (oferecida por associações) se consolida como a alternativa estratégica. Baseada no associativismo e no rateio de despesas, a proteção veicular oferece um custo mensal mais acessível e estável, sem a análise de perfil restritiva das seguradoras.
Além disso, muitas associações oferecem benefícios customizados para este público, como proteção para vidros, faróis e, crucialmente, a cobertura para terceiros — essencial para quem trabalha transportando pessoas ou circulando em áreas densas. A escolha pela proteção veicular é, frequentemente, o fator que permite fechar a conta no final do mês.
Regularizar a documentação e a atividade profissional
A profissionalização exige conformidade legal. O motorista que utiliza o veículo para fins remunerados deve, obrigatoriamente, incluir a observação EAR (Exerce Atividade Remunerada) em sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Essa regularização é exigida pelas plataformas de aplicativo e é fundamental em casos de sinistro.
Sem o EAR, uma seguradora ou associação pode, legalmente, negar a cobertura de um acidente ocorrido durante o trabalho, alegando descumprimento contratual ou agravação de risco não informada.
Adoção da direção defensiva e econômica como método de trabalho
A forma como o veículo é operado impacta diretamente a margem de lucro. A “direção econômica” é uma técnica que visa reduzir o consumo de combustível e o desgaste das peças.
Evitar acelerações bruscas e frenagens fortes, aproveitar a inércia do veículo e manter a calibragem dos pneus correta (verificada semanalmente) são hábitos que, somados, podem gerar uma economia de combustível de até 15%.
Fora a economia, a direção defensiva é uma ferramenta de proteção patrimonial. Antecipar situações de risco no trânsito evita pequenas colisões que, embora não causem perda total, geram custos de franquia e dias parados para reparo de funilaria, prejudicando o faturamento.
Gerenciar a depreciação e o valor de revenda
Por fim, é preciso lembrar que o carro de trabalho é um bem que se deprecia. A quilometragem elevada é inevitável, mas o estado de conservação não. Manter a limpeza interna e externa, cuidar do estofamento (o uso de capas protetoras é recomendado) e realizar pequenos reparos estéticos ajuda imediatamente a preservar o valor do ativo.
O objetivo do gestor-motorista deve ser manter o veículo em condições que permitam uma boa revenda ou troca futura, garantindo que o capital investido retorne para o negócio na hora da renovação da frota.
Ao final, trabalhar com o carro exige uma mudança de mentalidade: de proprietário para gestor de frota. O sucesso na atividade não depende apenas do número de corridas realizadas, mas da inteligência aplicada na redução de custos e na mitigação de riscos.
A escolha de um veículo econômico, a adesão a uma proteção veicular acessível e a disciplina na manutenção são os pilares que sustentam a rentabilidade e a segurança do condutor profissional.
