Mesmo com o aumento do emprego e da renda no Brasil, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,9% em abril, o maior nível da série histórica. O cenário ocorre em meio ao lançamento do Novo Desenrola Brasil, programa do governo federal que pretende renegociar até R$ 58 bilhões em dívidas e beneficiar cerca de 20 milhões de pessoas.
A inadimplência (dívidas em atraso) também segue elevada, atingindo 29,6% das famílias. O quadro contrasta com indicadores econômicos positivos, como desemprego em 6,1% e rendimento médio mensal acima de R$ 3.700.
Por que o endividamento continua alto
O avanço do endividamento das famílias brasileiras não está ligado apenas à renda ou ao nível de emprego. Especialistas apontam uma combinação de fatores que pressionam o orçamento doméstico.
Entre os principais motivos estão:
- Custo de vida elevado
- Juros altos
- Uso frequente de crédito
- Dívidas acumuladas desde a pandemia
Mesmo com mais pessoas empregadas, grande parte da renda é consumida por despesas básicas. Alimentação, moradia e transporte absorvem uma parcela significativa do orçamento, deixando pouca margem para poupança ou quitação de dívidas.
Juros altos e herança da pandemia
Durante a pandemia, o Brasil adotou juros baixos para estimular a economia, o que facilitou o acesso ao crédito. No entanto, a inflação elevada nos anos seguintes levou a um aumento expressivo da taxa básica de juros.
Esse movimento encareceu o crédito e aumentou o peso das dívidas já contraídas. Como resultado, muitas famílias passaram a comprometer uma parcela maior da renda com pagamentos mensais.
Atualmente, o comprometimento da renda com dívidas está próximo de 30%, o maior nível já registrado.
Inflação e perda do poder de compra
Outro fator determinante é a inflação, especialmente nos itens básicos. Mesmo quando o índice geral desacelera, produtos essenciais continuam com preços elevados.
Alimentos como arroz, carnes, leite e feijão registraram altas expressivas nos últimos anos, impactando diretamente o orçamento das famílias.
Com isso:
- Mais renda é direcionada para despesas essenciais
- Menos dinheiro sobra para consumo ou quitação de dívidas
- A sensação de perda de poder de compra aumenta
Pesquisas indicam que a maioria dos brasileiros sente que consegue comprar menos hoje do que há um ano.
Dependência do crédito e comportamento financeiro
Além do cenário econômico, o comportamento financeiro também influencia o endividamento das famílias brasileiras.
O uso recorrente do crédito, especialmente o cartão, é um dos principais fatores. Muitas decisões são baseadas no valor da parcela mensal, sem considerar o custo total da dívida.
Esse padrão contribui para:
- Acúmulo de pequenas dívidas
- Perda de controle do orçamento
- Dependência contínua de crédito
A falta de planejamento e de educação financeira também dificulta a mudança desse cenário.
Renegociação ajuda, mas não resolve sozinha
Programas como o Desenrola Brasil têm efeito importante no curto prazo, ao permitir a renegociação de dívidas com condições mais favoráveis.
No entanto, especialistas alertam que o impacto tende a ser temporário se não houver mudança no comportamento financeiro.
Sem ajuste nos hábitos de consumo e melhor organização do orçamento, o ciclo de endividamento pode se repetir.
Educação financeira como solução de longo prazo
A educação financeira é apontada como um dos principais caminhos para reduzir o endividamento de forma sustentável.
Entre as práticas recomendadas estão:
- Planejamento do orçamento mensal
- Controle de gastos
- Uso consciente do crédito
- Avaliação do custo total das dívidas
A mudança de comportamento é considerada essencial para evitar que o aumento da renda seja absorvido apenas por despesas e dívidas acumuladas.
