Tubarão
A experiência de perder a filha Paola Medeiros, no alto de uma juventude de 18 anos, é a história que a gerente de loja Luciana Gonçalves, 43, de Tubarão, aceita dividir como exemplo de que escolher a vida é a melhor opção. “Foi há quase dois anos, mas parece que foi ontem”, diz.
A jovem morreu em fevereiro de 2014, após lutar oito anos pela vida, por consequência de uma anemia severa, e seis meses depois, um transplante de medula óssea, realizado em Curitiba. Luciana, que na época morava em Criciúma, ficou o tempo todo ao lado da filha no hospital e, quando tudo acabou, apoiou-se na empresa da família e se consolou com amigos, mas, no fundo, nada adiantava.
Quatro meses se passaram. O casamento já tinha acabado, o comércio também não ia bem, e Luciana pensou que precisava mudar sua rotina, virar o jogo. Vendeu tudo e mudou-se para Tubarão, sem conhecer ninguém, apenas com uma proposta de trabalho.
Não demorou e a gerente de loja fez novos amigos, iniciou um novo relacionamento. “Quando minha filha faleceu eu tive que ser forte! Olhei em minha volta e pensei: tenho só a mim. Se não me segurar, em quem poderia? Em Criciúma, todos os meus amigos conheciam a história com minha filha e o assunto voltava sempre à tona. Em Tubarão, eu quem tocava no assunto. A abordagem foi diferente e isso me ajudou muito. Quem perde um filho, muitas vezes entra em depressão, talvez porque olha em volta e vê que tem uma família para cuidar. Eu não tinha”, revela.
“Existe um tabu sobre o tema”
Há cinco anos atuando na área da psiquiatria, o médico Allan Bussolo tem trabalhado de forma mais intensa neste mês em uma campanha que pretende ajudar pessoas em sofrimento a escolher a vida, o Setembro Amarelo. “Todo o ser humano que está adoecido, do ponto de vista psíquico precisa ser escutado, diagnosticado e tratado da forma mais adequada. A importância da nossa profissão está justamente em conseguir dar conta dessa tarefa e fazer com que as pessoas que tenham o seu sofrimento psíquico alcançar melhora e que sejam inseridos à sociedade novamente”, ensina.
Allan é, inclusive, um dos autores de um folder que já começa a ser distribuído em Tubarão e região nesta semana. “Na maioria das vezes um indivíduo que tem ideias de suicídio está adoecido do ponto de vista psíquico. A depressão e o uso de drogas são as principais causas. Conseguir enxergar alguém que passa por um sofrimento grave, desesperança, é a oportunidade de oferecer o tratamento”, avalia. Segundo o médico, um suicídio interfere gravemente na vida de pelo menos seis pessoas ao seu entorno. O tabu e o preconceito social em torno do tema são os principais obstáculos para trazer as pessoas doentes aos tratamentos. “Infelizmente, muitos ainda se escondem”, alerta.
“Busquei apoio na fé e encontrei amigos”
Após uma crise, isolada da família e de amigos, a atual presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Tubarão (Sintemut), Laura Oppa, viu no suicídio a ‘saída’ para colocar fim ao seu sofrimento. “A dificuldade financeira foi o que me impulsionou, porém, não compartilhar os meus problemas atrapalhou muito”, recorda. O episódio ocorreu há 12 anos. Laura jogou-se na frente de um caminhão, que conseguiu frear a tempo. Na sequência, foi até a ponte Dilney Chaves Cabral, no centro de Tubarão, e subiu na mureta, mas não pulou. “Quando fui me jogar, vi as carinhas das minhas filhas como um espelho no rio e voltei. Saí chorando, desesperada”, relata a tubaronense, que mudou a postura fechada e se abriu com todos, no trabalho, com o marido, e procurou ajuda especializada, com médico e psicólogo. “Antes de as tentativas, ninguém havia percebido que eu estava doente. Minha rotina mudou em virtude de monitoramento familiar, visitas à psicóloga semanalmente e tratamento medicamentoso. Encontrei amigos que antes jamais imaginaria que me ajudariam neste processo. Busquei apoio na fé e frequento a igreja”, diz.
Para Laura, as pessoas tendem a não procurar ajuda pela vergonha em admitir que estejam doentes, e ainda por não perceberem sinais que possam mostrar traços de depressão. “Se eu me deparar com alguém que está precisando de ajuda, abordo sutilmente, converso, elogio, puxo assunto e, com certeza, ela se abrirá. Esta experiência já ocorreu várias vezes. É preciso lidar com o tema de forma natural, pois tem extrema importância. As pessoas devem se colocar no lugar do outro, perceber sinais que possam evidenciar ansiedade, estresse, tristeza. Não julgar as atitudes por te relatarem o desejo de suicídio, pois uma doença pode estar correlacionada. Também não se deve julgar uma pessoa que cometeu suicídio, pois ela, com certeza, estava doente e ninguém percebeu”, orienta Laura.
