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Falsa fluência digital no Brasil expõe desafios educacionais e profissionais

A ideia de que crianças e jovens são “nativos digitais” por dominarem smartphones é cada vez mais questionada. No Brasil, especialistas alertam que a familiaridade com redes sociais e aplicativos não significa fluência digital produtiva.

A chamada falsa fluência digital no Brasil mascara déficits em leitura, matemática e pensamento lógico, competências essenciais para o uso qualificado de computadores, editores de texto, planilhas e sistemas profissionais.

Dados recentes mostram que o país ainda enfrenta dificuldades estruturais em alfabetização funcional e habilidades digitais avançadas, com impacto direto no mercado de trabalho.

Alfabetismo funcional estagnado

O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024 aponta que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. O índice permanece praticamente inalterado desde 2018.

Isso significa que quase um terço da população tem dificuldade para interpretar textos simples ou realizar operações matemáticas básicas no cotidiano. Apenas cerca de 10% atingem nível considerado proficiente.

O estudo incluiu testes realizados em celulares para avaliar como o alfabetismo interfere na compreensão de informações digitais. O resultado reforça que o domínio técnico do aparelho não garante entendimento crítico de textos e números apresentados na tela.

Sem base sólida em leitura e matemática, o uso da tecnologia tende a ser superficial e limitado a interações básicas.

Desempenho abaixo da média internacional

O cenário também aparece nas avaliações internacionais. No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) 2022, coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o Brasil registrou 410 pontos em leitura, abaixo da média da OCDE, de 476 pontos.

Metade dos estudantes brasileiros ficou abaixo do nível 2 de proficiência, considerado básico. Apenas 2% alcançaram níveis mais altos de desempenho em leitura.

A OCDE destaca que habilidades digitais dependem diretamente da capacidade de compreender textos longos, interpretar informações e resolver problemas complexos — competências ainda frágeis no país.

Já a pesquisa TIC Domicílios 2025, do CGI.br, mostra alta presença de internet e smartphones, mas revela limitações no uso produtivo do computador, na organização de arquivos e na navegação crítica em plataformas digitais.

O acesso cresceu. A proficiência não acompanhou no mesmo ritmo.

Smartphone não substitui competências produtivas

Grande parte dos jovens brasileiros domina redes sociais, vídeos curtos e aplicativos de mensagem. Porém, isso não significa que saibam:

  • Produzir textos formatados em editores

  • Criar planilhas com fórmulas

  • Organizar arquivos em pastas

  • Redigir e-mails formais

  • Compreender sistemas digitais complexos

A diferença entre consumo digital e produção digital é central nesse debate.

Enquanto o uso recreativo estimula respostas rápidas, o uso produtivo exige planejamento, lógica e organização. São habilidades que dependem de formação escolar consistente.

Especialista alerta para confusão entre acesso e preparo

O tema foi discutido recentemente no Notisul Negócios, que recebeu o especialista em tecnologia Antonio Beluco, do Unimate Labs. Confira:

Déficit no mercado de TI

O impacto aparece de forma clara no setor de tecnologia. A Brasscom estima um déficit acumulado de 530 mil profissionais de Tecnologia da Informação entre 2021 e 2025.

Atualmente, cerca de 53 mil profissionais se formam por ano, enquanto a demanda anual gira em torno de 159 mil vagas.

O macrossetor de TIC projeta geração de milhares de empregos nos próximos anos, especialmente em cargos como:

  • Desenvolvedor de software

  • Analista de dados

  • Gerente de TI

  • Especialista em segurança da informação

Essas funções exigem programação, raciocínio lógico, organização de sistemas e compreensão técnica — competências que vão muito além do uso de aplicativos móveis.

Sem alfabetização digital produtiva, jovens permanecem excluídos das oportunidades de maior qualificação e renda.

Falsa fluência amplia desigualdades

A falsa fluência digital no Brasil reforça desigualdades sociais.

Apenas ter acesso a dispositivos não garante inclusão econômica. Pelo contrário, pode gerar a impressão de preparo tecnológico sem que haja base sólida para o mercado de trabalho.

Estudos indicam que leitura e matemática continuam sendo pré-requisitos para o desenvolvimento de habilidades digitais reais. Sem essas competências, a navegação online tende a ser limitada a entretenimento e consumo.

Isso cria barreiras em:

  • Processos seletivos

  • Cursos técnicos e universitários

  • Serviços públicos digitais

  • Empreendedorismo online

A transformação digital exige mais do que conectividade: exige formação estruturada.

Caminhos para superar o déficit

Especialistas apontam que a solução passa por fortalecer:

  • Alfabetização plena na educação básica

  • Ensino de informática produtiva (Word, Excel, organização de arquivos)

  • Introdução à lógica e programação

  • Pensamento computacional desde os anos iniciais

Políticas públicas e iniciativas privadas que integrem tecnologia aos currículos STEM podem reduzir o déficit nos próximos anos.

O desafio não é apenas conectar estudantes à internet, mas prepará-los para usar a tecnologia como ferramenta de criação, análise e inovação.

Sem isso, o Brasil continuará convivendo com a contradição entre alto consumo digital e baixa fluência produtiva.

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