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Fazendo cruzeiros

Luiz Carlos Amorim 
Escritor, editor e revisor

Já fiz mais de dez cruzeiros pelo Brasil e pelo mundo e já tinha viajado pela Costa Cruzeiros e não tinha gostado. Como queria levar de novo minha mãe e na data pretendida só havia vaga naquela companhia, encaramos de novo a Costa. Embarcamos no Costa Fascinosa para a Argentina e Uruguai, em quase fim de Janeiro para retornar no início de Fevereiro.

As “inconsistências” já começaram cedo: o cartão chave não foi entregue na entrada do navio, como em todas as outras companhias. Ficamos sabendo, depois de perguntar para ter alguma notícia, que o cartão estava dentro do quarto. Só que quando chegamos ao quarto, ele estava fechado. É que as malas também são deixadas dentro do quarto, e quando o entregador saiu deve ter deixado bater a porta e pronto: tive que sair pelo navio a procurar o deck da recepção – atendimento ao hóspede, para fazer um novo cartão. Chegando lá, havia uma fila enorme de pessoas com o mesmo problema. Além de indignado com o fato de não poder entrar, fiquei receoso pela falta de segurança: e aquelas portas que ficam só encostadas, em quartos com a bagagem e o cartão da gente lá dentro, ao alcance de qualquer um que tenha más intenções? Falei sobre isso na recepção, mas a atendente simplesmente respondeu: aqui na Costa é assim.

Diferente de outras companhias, onde há café, suco, comida e às vezes até sorvete todo o tempo, naquele navio da Costa só tem café disponível no café da manhã e no café da tarde. Suco, só de manhã. Água e gelo apenas em dois ou três lugares e em alguns horários.

A comida no restaurante a la carte também não correspondeu à expectativa: num jantar havia um espetinho frito: carne de boi dura, carne de galinha e de porco lavados, com uma cobertura à milanesa, tudo molenga e gorduroso. Outro dia serviram um peixe com legumes, tudo boiando em gordura. Serviram também, num dos dias, um prato de bacalhau, que consistia em uma pilha de fatias de batata com uma pasta rala de peixe entre elas. Gorduroso. Houve também uma casquinha de siri, no menu, que pedi imediatamente logo que vi, animado, mas siri não tinha nenhum: parecia macarrão. E assim por diante. Então resolvemos comer só no restaurante self service, onde até encontramos bons pratos, ao longo dos dias: salada de polvo, camarões grandes, postas de bacalhau, etc. O navio é de origem italiana, então as massas eram muito boas.

Mas a cereja do bolo foi o que fez um garçom, em um dos bares: debitou meu pedido em outra conta e de outro hóspede no meu cartão e trocou os cartões de pagamento e o outro hóspede que recebeu o meu cartão comprou com ele. Várias compras. A primeira eu consegui estornar no dia seguinte, pois o atendente da madrugada anotou, assim que eu descobri a troca e fui devolver o cartão que não era meu. As outras, no penúltimo dia ainda não tinham sido estornadas, porque apesar de terem tirado cópia de respectivo recibo e comprovado que a assinatura não era minha, o estorno não foi feito porque tinha que ser feito pelo garçom que me atendeu. Esperei que falassem com o garçom e quando voltei, lá pela sétima vez à recepção, a recepcionista me disse que o garçom lhe disse que não havia nenhum problema, que ele tinha falado comigo e acertado tudo. Se ele tivesse voltado e falado comigo, teríamos acertado, destrocado os cartões e nada daquela incomodação – para mim – estaria acontecendo. Além do erro de debitar a minha conta na conta do outro hóspede e do outro hóspede na minha conta e entregar os cartões e contas trocados, ele mentiu. Sem contar que a recepcionista mostrou-me uma comanda no meu nome com uma assinatura que não batia com a minha, o que comprovava que a compra não fora feito por mim e então eu, aliviado, disse: então está provado, pode verificar as outras comandas que vão estar com a mesma rubrica, que não é minha. Ao que a recepcionista olhou para a comanda e para mim e disse: pois é, mas qualquer um pode fazer uma assinatura diferente da verdadeira. Quer dizer: eu devolvi o cartão que não era meu assim que descobri a troca, não comprei absolutamente nada em uma conta que não era minha, o outro hóspede fez várias compras com o meu cartão e eu é que fui chamado de desonesto e ladrão. Porque a recepcionista insinuou, muito diretamente, que eu poderia ter falsificado a minha assinatura para não pagar a conta. Mas eu não fiz nenhum barraco, só questionei que nunca mudei a minha assinatura, ela sempre foi a mesma, e eu não falsificaria por tão pouco nem por muito mais, pois sabia que se encrencasse, nunca estornariam o que não fui eu que comprei e era capaz de aparecerem outras compras. No último dia do cruzeiro fizeram o estorno.

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