Início Opinião Gropius & Bauhaus

Gropius & Bauhaus

As artes não apenas retratam, mas também dialogam com as mudanças, quando não as forçam. Isso ficou claramente perceptível ao fim da primeira Grande Guerra (1914-1918), que decretou não somente o declínio econômico, político e militar da Europa, mas também o fim de uma respeitável e longeva continuidade cultural. Abalados pela catástrofe mundial, o humanismo aristocrático e o individualismo liberal entraram em crise terminal.

Séculos de aparente bem-estar e solidez de valores desmancharam-se no ar. Fruto de um certo “mal-estar da civilização”, nas primeiras décadas do século 20 deu-se a multiplicação de ideologias seculares – comunismo, nazismo, fascismo – que vinham ocupar um espaço esvaziado de Deus. No campo da estética, deu-se a ruptura com uma tradição de cinco séculos de arte e literatura: a arte moderna fez do repúdio ao passado a sua pedra filosofal.

Foi nesse contexto que, há exatos 91 anos, em 25 de abril de 1919, o arquiteto alemão Walter Gropius fundou, em Weimar, a Escola Bauhaus de Arquitetura e Artes Aplicadas, um marco no design, arquitetura e arte modernos.
Artistas e artesãos sempre ocuparam espaços distintos no universo das artes em geral. Os primeiros sempre se viram como uma espécie de aristocracia das belas artes, os favoritos das musas, os eleitos de Apolo, enquanto os artesãos, humildes, tinham a inspirá-los Hefesto, o deus corcunda da forja que, infeliz, malhava o ferro incandescente na bigorna nos subterrâneos da Terra.

Um dos primeiros propósitos da fundação da Bauhaus foi enfrentar esse estigma histórico-corporativo pela educação do artista-artesão, Gropius unificou as duas visões e, com o apoio de arquitetos e artistas de vanguarda, fundou a “Das Staatliche Bauhaus” (em alemão: casa estatal de construção). Da superação desse dilema surgiu o moderno design industrial.

Walter Gropius ressaltava três características da Bauhaus: 1) o paralelismo entre o ensino teórico e prático (os alunos estudavam simultaneamente sob a orientação de dois mestres: um professor artesão e outro de desenho); 2) o contínuo contato com a realidade do trabalho; e 3) a presença de professores criativos.
Sobre a primeira característica, é interessante lembrar uma frase do pintor francês Eugenio Delacroix, nascido num 26 de abril, de 1798, que dizia: “Primeiro aprenda a ser um artesão. Isso não impedirá você de ser um gênio”.

Sobre a terceira, é imperioso destacar os nomes que figuravam no quadro de professores: Paul Klee, Mies Van der Rohe, Johannes Itten, Josef Albers, Herbert Bayer, László Moholy-Nagy e Wassily Kandinsky, entre outros.
Negando as características nacional-históricas na arquitetura e nas artes, a Bauhaus lança as bases do modernismo, determinando que o principal determinante de um projeto deve ser a função que o produto virá a ter.

Em seu livro Criatividade e Grupos Criativos, o sociólogo italiano Domenico De Masi exalta a Bauhaus, “ao mesmo tempo uma escola, um laboratório e uma oficina”, como um dos pioneiros da sociedade pós-industrial.
De Gropius, guardei uma frase genialmente simples: “O cérebro humano é como um guarda-chuva: funciona melhor quando aberto”.

Sair da versão mobile