No meu último domingo na Alemanha, escolhi, antes de qualquer despedida, agradecer. Agradecer pela estadia na casa da minha enteada — que me presenteou com minha neta Melissa.
Para quem leu minha crônica “Avós que nascem do Amor”, vai se lembrar: Melissa é minha neta do coração. Minha segunda neta. E, mais uma vez, a vida me mostrou que o amor — quando verdadeiro — não precisa de laços de sangue para existir. Ele simplesmente se faz inteiro.
Naquele domingo, acordei cedo, como quem já carrega no peito uma intenção. Tomei meu café com calma e segui para a estação de metrô. A igreja que eu visitaria havia sido indicada por uma seguidora — dessas presenças discretas que, sem saber, guiam nossos caminhos.
Dias antes, ao passar pelo centro de Munique, resolvi conhecer o local. Mas, ao entrar, fui surpreendida por uma grade de ferro que impedia o acesso. Nunca tinha visto algo assim.
Fiquei ali, do lado de fora, por alguns minutos, rezando. Rezando por quem havia construído aquele lugar que, mesmo inacessível, já me tocava.
A beleza parecia flutuar diante dos olhos. Eu e outros turistas permanecíamos em silêncio, quase em reverência, esticando os braços por entre as grades — como se pudéssemos alcançar aquilo que os olhos viam, mas a razão não explicava. Era como se o coração entendesse antes de qualquer lógica.
Na saída, um cartaz em alemão chamou minha atenção. Mais tarde, com a ajuda da minha enteada, descobri: a recomendação era que os católicos participassem da missa de domingo às dez da manhã, por seguir um rito mais próximo do que conhecemos no mundo.
No domingo, cheguei com quarenta minutos de antecedência. Mas o tempo, ali dentro, não obedecia o relógio. Pareciam quatro minutos quando a celebração começou.
Desde o instante em que atravessei o portão — agora aberto para acolher os fiéis — fui tomada por um encantamento difícil de descrever. Eu não sabia para onde olhar. Queria manter certa discrição, parecer apenas mais uma frequentadora. Mas era impossível.
Olhava para o alto. E, antes de qualquer contemplação, fechava os olhos. Agradecia.
Agradecia por estar ali. Por aquele lugar sagrado, erguido por mãos que eu desconhecia — mas que, certamente, foram guiadas por algo maior. Perguntei a mim mesma, inúmeras vezes, como uma obra daquela grandiosidade poderia ter sido construída em tempos de tão poucos recursos.
No coração de Munique, existe um lugar que parece ter nascido de um sonho barroco: a Asamkirche. Pequena por fora. Infinita por dentro. Descobri depois que foi construída no século XVIII pelos irmãos Asam. Mas, naquele momento, o que eu via era mais do que história — era expressão. Dourados que captavam a luz com delicadeza, afrescos intensos, esculturas que pareciam respirar.
Eu observava cada detalhe demoradamente, como quem tenta decifrar não apenas a forma, mas a intenção.
Cada centímetro daquela igreja parecia guardar uma mensagem. Um convite ao silêncio. À contemplação. À entrega. Sentei-me. E rezei.
Rezei por quem construiu. Rezei por quem amo. Rezei por tudo o que me vinha ao coração. Percebi que a missa estava prestes a começar quando alguém surgiu com um acendedor longo, iluminando as velas — até as mais altas, com um cuidado quase ritualístico. Aquilo também me encantou. Era simples, mas profundamente simbólico.
Logo depois, notei um senhor caminhando pelo andar superior. Em seguida, uma jovem seguiu na mesma direção. Eu ainda estava com os olhos presos a um anjo suspenso quando o órgão começou a tocar. E ela começou a cantar. E eu comecei a chorar.
Chorava sem constrangimento. Chorava enquanto rezava. Chorava porque algo dentro de mim estava sendo tocado de uma forma que eu nunca havia sentido antes. Passei a rezar por eles também — por aqueles dois, cujos dons preenchiam aquele espaço com fé. Naquele instante, compreendi: a fé não precisa ser explicada. Ela se manifesta.
O celebrante chegou. A missa começou. Os fiéis cantavam — e eu, tomada por uma emoção que já não cabia em mim, cantei junto. Cantei. Rezei. E, no momento da saudação da paz, consegui reconhecer, com esforço e atenção, as palavras: “Der Friede Christi”. A paz de Cristo.
Comunguei. E, ao retornar ao meu lugar, ajoelhei-me mais uma vez e pedi bênçãos — para mim, para vocês. A missa terminou. As pessoas se cumprimentavam. Havia famílias, pais e filhos com trajes típicos alemães, todos envolvidos por um respeito silencioso que permanecia mesmo após o fim da celebração.
Fiquei ali por mais algum tempo. Aos poucos, a igreja foi sendo tomada por turistas. Esperei, e quando finalmente me virei em direção ao altar, vi o padre vindo ao meu encontro.
Ele estendeu a mão. Disse algo que eu nunca saberei exatamente o que foi. Mas entendi. Olhei em seus olhos, sorri e, com um gesto simples, respondi: amém.
Ele sorriu de volta e seguiu para a sacristia. Saí dali com a certeza de que a linguagem da fé não precisa de tradução. Eu fui para agradecer. Mas saí profundamente agraciada.
Nos vemos nas próximas linhas!
