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Jovem pede emprego no semáforo

Yago, 24 anos, sustenta a família e quer aumentar renda trabalhando como roçador na região.

Willian Reis
Tubarão

Quando o sinal fecha, Yago Nascimento Urbano tem menos de um minuto para distribuir, de carro em carro, o folheto criado na lan house em que pede uma chance de emprego. Com apenas 24 anos, o rapaz assumiu a responsabilidade de ser o chefe da família: é ele quem garante o dinheiro para as despesas do mês e para sustentar as duas irmãs e os pais desempregados.

Nas noites de sexta e sábado, Yago ganha algum dinheiro cuidando dos carros de clientes de um restaurante no centro de Tubarão. Ele faz o mesmo serviço na catedral diocesana, enquanto os fiéis, lá dentro, acompanham a missa de domingo à noite. Até que um dia, seis meses atrás, um cliente na saída do restaurante quis saber por que o rapaz estava ali, àquela hora, cuidando de veículos.

Yago disse que estava cansado de entregar currículos e só ouvir não. No outro dia o desconhecido ligou para ele contando que tinha comprado uma roçadeira e os equipamentos de segurança. O rapaz só precisava ir à loja buscar a mercadoria e começar a trabalhar. Em uma gráfica, Yago fez alguns cartões e foi distribuindo de casa em casa, em bairros como Dehon e Vila Moema, mas sem sucesso.

Como o serviço não aparecia, resolveu fazer anúncios mais simples, em papel sulfite, e começou a distribui-los nos semáforos do Centro. Cinco pessoas já o contrataram em duas semanas. Sempre com sorriso, ele passa a semana repetindo o gesto de oferecer seu trabalho. Mas nem todos os motoristas retribuem: alguns permanecem com os vidros fechados, enquanto outros o rejeitam. “Tem gente que enxota como se eu fosse um bicho”, conta.

Há também os que o confundem com alguém atrás de esmola. “Uma mulher na calçada disse: “Sai daqui que eu não quero saber de nada”, e virou as costas”, relembra. Aí então, Yago tem a paciência de pedir que a pessoa leia o anúncio, para então descobrir que o que ele quer é emprego.

Rapaz já buscou tratamento para os pais
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Yago diz que a família consegue viver sem aperto com o que ele ganha cuidando dos veículos. “Mas não tem como ficar feliz”, confessa. Há meses, a mãe, 43 anos, parou de trabalhar como faxineira porque se tornou viciada em crack, depois que arranjou um namorado também consumidor. O rapaz tentou tratamento para ela, mas a mãe permaneceu na clínica apenas um dia.
“Prefiro vê-la curada a ganhar dinheiro”, diz. Pouco tempo atrás, era o pai, 44, quem tinha problemas com o álcool. Yago também conseguiu interná-lo. O homem seguiu no tratamento e hoje se mantém longe das bebidas. Os pais são separados, mas moram na mesma casa, com Yago e as outras duas filhas, uma de 17 e outra de 20 anos.

Yago quer se tornar psicólogo
Há quatro anos, a família perdeu tudo. Yago saiu para brincar o Carnaval e quando chegou se deparou com a casa de madeira destruída por um incêndio. Mas, com a ajuda de fiéis da catedral diocesana, conseguiu construir uma nova moradia.
Com a responsabilidade de cuidar da própria família, Yago diz que não é de desanimar fácil. Quando o viram com a roçadeira nas costas, por exemplo, e começaram a duvidar de sua capacidade, o rapaz fez que não ouviu. “Antes dava muita bola para os outros”, comenta.
Enquanto faz o ensino fundamental no supletivo, ele agora sonha em ser psicólogo. Porque, como ele mesmo diz, não gosta de ficar parado.

Como contratar Yago (o famoso bilhetinho)
Telefone para contato: (48) 9.9817-4269

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