Às vezes, ouço o passar do vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
Frases como esta fizeram a poesia de Fernando Pessoa ser a maior expressão da literatura portuguesa contemporânea. Nascido em Lisboa, crescido na África do Sul, Fernando Pessoa é, sem dúvida, o mais universal dos poetas portugueses.
Escrevendo em português e inglês, a sua linguagem poética extravasou os limites da cultura lusitana. Misturou cores, sabores, ritmos europeus e africanos. Caminhante em busca de horizontes novos, Pessoa exaltava: “há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.
E explicava esse jeito irrequieto de uma busca constante, permanente, na frase que lhe é mais citada: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.
Fernando tinha a alma grande, de poeta e pensador que afirmava: “tenho em mim todos os sonhos do mundo”. E mais: “tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor no coração dos homens”.
Pouca gente sabe que três das suas quatro obras foram escritas e publicadas em inglês, embora as versões portuguesas tenham a mais legítima alma lusitana e a mesma áura trágica do fado: “mar o teu sal foi feito com as lágrimas de Portugal”, frase de absoluta sutileza, com que canta o heroísmo dos navegadores e chora a viuvez das mulheres.
Para ele, “o poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que sente”. Exaltava o recolhimento como forma de meditar e criar: “a liberdade é a possibilidade de isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.
Seus escritos eram fruto de uma elaboração aprimorada, paciente, de fazer e refazer, escrever e reescrever, consciente de que “adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito”.
Com o mesmo malabarismo com que Thomas Mann revelou, na “Montanha Mágica”, estilos diversos, no duelo filosófico entre Leo Naphta e Settembrini, Fernando Pessoa insinua três escritores diferentes, ao escrever sob os pseudônimos de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
O primeiro é objetivo: retrata as coisas como elas realmente são. O segundo é renascentista: tem inspiração nos clássicos greco-romanos. O terceiro é moderno: tem um sentido pragmático, mais materialista, na busca do progresso e da civilização.
Goethe, ao escrever o “Dr. Fausto”, criou o maior monumento da literatura mundial, também por ser capaz de redigir estilos cambiantes.
Alberto Caieiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos: tudo é Fernando Pessoa, a grande glória da prosa e da poesia portuguesa moderna, cujos 125 anos de nascimento ocorrem amahã, data da morte de outro português ilustre: Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa)!
