Alice era uma adolescente, filha de família pobre, muito educada e obediente, e também era uma aluna bem aplicada nos estudos. Tinha como meta continuar estudando, passar no vestibular para medicina e ajudar a sua família a ter uma condição de vida melhor. Naquele dia em que Alice entrava na sala de aula, a sua professora Fernanda notou que Alice estava com o semblante triste. Preocupada com a aluna, a educadora aproxima-se da jovem e pergunta:
– Bom dia, Alice! Tudo bem com você?
Respondeu a jovem: – Nem tudo, professora Fernanda. Realmente hoje estou muito triste.
– Mas qual a razão desta tristeza toda? Podemos conversar durante a aula de educação física?
– Sim professora.
Duas aulas após, lá estavam na biblioteca professora e aluna, num afinado papo.
– Então – disse a professora – Estamos só eu e você aqui. Conte-me tudo e não esconda nada, pois, além de minha aluna, a considero como uma de minhas filhas.
– Sabe, professora, por mais que a senhora me considere, eu me sinto um pouco constrangida em falar para a senhora os problemas particulares que eu e minha família enfrentamos.
– Sim, mas é por isso que estamos aqui. Vamos conversar como duas grandes amigas. Mas se você não quer falar, também não vou obrigá-la. A menos que seja algum problema pertinente entre a escola e você. É isso?
– Claro que não. dona Fernanda. Se existisse algum problema desta ordem, eu já teria procurado a senhora ou a direção da escola, que até o momento me trataram muito bem.
– Muito bem! Deixo esta questão para você resolver quando desejar me procure.
– Tá certo então. Vou contar para a senhora.
E foi ali naquele momento que Alice resolver desabafar para a sua professora:
– Bem, dona Fernanda, não é segredo para ninguém que venho de família pobre, moramos em uma simples casa montada com restos de tábuas de sobra de construção e, para dificultar ainda mais, não só a casa de minha família como também de muitas outras famílias foram construídas às margens do rio. E lá não existe o mínimo de condições de higiene e também de saúde sanitária, e muito um controle de natalidade. Todas as famílias que moram lá estão sob a linha de pobreza. Muitos chefes de família desempregados, carregados de filhos e sem poder sustentar a todos. Um bom número de crianças que não podem frequentar a escola porque são obrigados a ajudar no sustento da casa. E é aí que estes jovens indefesos na maioria das vezes resolvem pegar um atalho para encurtar o sofrimento deles e também da família; pensando com a emoção e com a barriga vazia que estão fazendo a coisa certa; pois o que importa é conseguir comida para ele, para os pais e para os maninhos menores. É aqui nesta bifurcação entre a emoção e a razão que aparecem as drogas e, muitas vezes, a chance de entrar para a criminalidade infantil. E é por causa deste rótulo, por causa de uma discriminação ainda existente em uma sociedade muito fria e por culpa também do poder público, que faz vista grossa a essa gente que apenas é lembrada em épocas de eleição. E aí então as promessas são muitas em nome de todos os santos; e haja santo, professora. Mas, do mesmo modo como elas chegam, elas também desaparecem: disfarçadamente. E lá continuamos nós aguardando pelas promessas ilusórias ditas por inconsequentes e insensíveis de que a saúde, educação, e justiça social para todos terão prioridade em seu governo. Pura mentira, professora Fernanda.
– Mas, querida Alice! Eu conheço os problemas de sua comunidade. Sabemos que os governos, tanto municipal, estadual e federal, têm uma grande parcela de culpa. E outra coisa que você precisa saber: esta regra nós não podemos aplicar no geral. Pois no meio dos lobos existem também os cordeiros. Mas continua, sua redação está muito interessante.
– Pois então. Eu entendo perfeitamente que os nossos governantes não têm culpa alguma por causa da nossa infeliz condição de vida. Mas não estamos tratando somente de minha família. Trata-se da vida de dezenas e dezenas de famílias que até hoje sonham com a remota possibilidade daquelas falsas promessas virarem realidade. Outro grande problema em nosso país é o descaso, esse descalabro, professora, pela educação, saúde e justiça igualitária para todos. Sabe o que eu penso, professora, para terminar o nossa conversa? É que o governo não tem interesse nenhum pela classe dos indigentes. Nós, pobres, só trouxemos prejuízos para eles. Então, eles apostam é em gastar somas milionárias construindo estádios de futebol, arena multiuso, etc. E ainda têm o descaramento de contar mentiras através da mídia, ao dizer que a miséria está sendo erradicada do país. Pois eu gostaria que a presidenta Dilma Rousseff viesse até Tubarão, onde eu gostaria que ela visitasse nosso acampamento e arredores para ver quanta pobreza existem por aqui. Então, assim como eu, Alice, e minha família, há outras famílias que estão à espera de um desfecho melhor ou pior, pois isso nós não sabemos, pois vai depender do conto que cada Alice narrar.
