Casas de loteamento irregular, instalado em terreno do Estado, foram derrubadas ontem, durante execução de ação de reintegração de posse ordenada pela Justiça.
Willian Reis
Laguna
Por volta das 8h de ontem, teve início o que eles temiam e o que alguns chegaram a sonhar que jamais fosse de fato ocorrer. Os que decidiram ficar, para resistir até o fim, tiveram de assistir aos maquinários da prefeitura de Laguna derrubar, em cumprimento a uma ordem judicial, as casas construídas em um terreno que pertence ao governo do Estado, próximo ao bairro Mato Alto. A ocupação ficou conhecida como Loteamento Novo Horizonte, mas uma decisão liminar, expedida em dezembro, determinou a retirada de todos os moradores, e o horizonte de muitos ficou completamente sem rumo.
“Acabaram com a nossa vida. O sonho foi por água abaixo”, resume Geovani Moacir Ribeiro Marques, de 41 anos. Foram R$ 7 mil investidos no terreno e que agora ficam para trás. Enquanto as máquinas avançavam sobre os barracos na manhã de ontem, ele e o filho de 15 anos trabalhavam para retirar o que fosse possível. Marques trocou o carro por um quintal no bairro de Barbacena. É lá, na casa de uma vizinha, que ele, a mulher e os dois filhos irão se abrigar até a nova residência da família ficar pronta.
Foram cinco anos no Novo Horizonte. Mas, em meio aos entulhos, Marques não se conforma em ter de abandonar o local. “O que eles vão fazer com esse terreno? É uma vergonha botar a gente para fora. É o nosso suor indo embora”, desabafa o antigo morador.
Os móveis eram empilhados do lado de fora, na rua, quando Edu Cirino Inácio, 62, saiu de casa carregando as caixas de leite que haviam sobrado. Ao se dar conta de que não teria mais volta, não resistiu e chorou. “Agora o que tenho na vida são só os meus gatinhos e a minha mulher”, diz. A esposa, Maria Soares, 67, tem a saúde frágil e somente 10% de visão no olho esquerdo. Estava muito abalada, e, aos prantos, teve de aguardar no carro o fim da mudança.
Eles conseguiram uma casa emprestada em Imbituba, mas só devem ir para lá daqui a três dias. Enquanto isso, ficarão em um abrigo provisório montado no salão paroquial da Igreja de São Pedro, no vizinho bairro de Cabeçudas. À frente do albergue estão os alunos do Escritório Modelo Troca de Saberes (Emtrosa), do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro de Educação Superior da Região Sul da Udesc, em Laguna. Outras seis famílias também devem se abrigar no local até que outra solução seja encontrada.
O estudante Filipe Teixeira conta que o grupo passou a noite no loteamento prestando auxílio aos moradores. Durante o dia, os membros do Emtrosa também ajudaram nas mudanças. “O pessoal está desesperado. É gente que não tem para onde ir, alguns não querem sair de casa”, comenta o acadêmico.
Noite anterior ao despejo foi de desespero

“O que Deus preparar para a gente”, responde a paraense Milza Maria Senra, 66, quando perguntada para onde vai se mudar. Enquanto não encontra um endereço fixo, a família também terá de se abrigar no albergue montado na igreja. Ao todo, quatro pessoas moravam na casa há sete anos. Foram gastos R$ 20 mil na obra e mais R$ 12 mil na compra do terreno, segundo Milza. Em meio ao vai e vem de máquinas e funcionários, a sogra, Maria da Glória dos Santos, 58, dizia não concordar com o que via. “Tem que ter coragem para fazer isso”, lamentava.
Há quatro anos no local, Adilson da Silva, 56, lembra que a noite anterior ao despejo foi de desespero entre os moradores. “Tem gente que passa fome, pede comida na vizinhança, não tem para onde ir. É uma situação complicada”, relata. Por enquanto, ele irá morar na casa de familiares, em Tubarão.
Moradora diz que regularização da área era promessa de campanha
Na visão do menino Thiago, 8, podia ser só mais uma mudança de endereço que a família teria de fazer. Ainda com o uniforme da escola, ele encontrou restos de madeira e disse que iria usá-los como trave para o futebol na nova casa. Mas qual? Sua mãe, Chaiane Pires, diz que conseguiu uma residência em Cabeçudas, porém, precisa arranjar o dinheiro do aluguel até amanhã. Está desempregada e não sabe de onde tirar os R$ 650 cobrados pelo locatário.
No loteamento, ela vivia com a mãe e seus cinco filhos, com idades entre 3 e 14 anos. Com R$ 5 mil comprou a casa de madeira, que aos poucos recebeu cozinha e banheiro em alvenaria. Vendia cosméticos para poder bancar a reforma. “Sabia da liminar, mas achava que eles não teriam coragem de tirar a gente daqui”, afirma. Durante o corre-corre, Chaiane recebia o apoio de Nahara Anselmo. Elas nunca haviam se visto antes, mas Nahara quis sair de sua casa, em outro bairro, e ir até o loteamento para se certificar de que ocorreria o despejo. “Isso não se faz. É muito triste. O que mais parte meu coração são as crianças e os idosos. Vim ajudar como posso”, conta, aos prantos, enquanto segura no colo uma das filhas de Chaiane. Até mesmo alguns funcionários da prefeitura não escondiam as lágrimas enquanto auxiliavam nas mudanças. Um deles, que operava um trator, estava em seu primeiro dia de trabalho.
Maria de Lourdes da Silva, 60, diz que nunca pensou que haveria o despejo, porque, segundo ela, então candidatos em campanha no ano passado prometeram que as casas seriam regularizadas. “Em janeiro ninguém conhecia mais a gente”, critica, indignada. Ela ainda está pagando os materiais usados na construção do banheiro, que também veio abaixo ontem de manhã.
Prefeitura avalia situação de moradores
Cerca de 50 policiais militares deram apoio aos oficiais de justiça na operação conjunta de ontem. Houve reforço de agentes de Imbituba, Tubarão e Braço do Norte, além do Batalhão de Choque de Florianópolis. Às 5h, ainda no quartel, eles receberam a orientação dos superiores e uma hora depois já estavam no loteamento dando início ao isolamento da área.
Sete famílias foram contempladas com o auxílio para aluguel de R$ 600 e pelo prazo máximo de quatro meses, concedido pela prefeitura. A situação dos últimos moradores a deixarem o local – são cerca de dez famílias – é avaliada pela Secretaria de Assistência Social e Habitação, que vai definir, caso a caso, quais serão os encaminhamentos. Segundo a secretária Maria de Fátima Figueiredo Duarte, a permanência deles no abrigo deve ser o mais breve possível.
Relembre o caso
Em 13 de dezembro, os moradores receberam uma intimação expedida pela 1ª Vara Cível de Laguna determinando a saída do local em até 30 dias. O prazo dado pela liminar encerrou, portanto, em janeiro, mas a remoção das famílias foi adiada até que se encontrasse uma solução para elas. Com 20 hectares, a área pertence à Companhia de Desenvolvimento Industrial de Santa Catarina (Codisc), mas o órgão foi extinto e todo o seu patrimônio passou a ser administrado pela Companhia de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (Codesc). Entre os motivos para a reintegração está o fato de no terreno existir poços de captação de água, que, devido à presença dos moradores, correm risco de poluição. A prefeitura agora tenta a transferência das terras para o município: 170 mil metros quadrados já foram repassados para Laguna, mas agora são pleiteados os 400 mil metros quadrados restantes, para a construção de um conjunto habitacional e um parque industrial.