Se você tem nos acompanhado nesta trilha, já sabe que falamos sobre como construir uma empresa mais estruturada, humana e sustentável a partir da boa governança, clareza de papéis, definição de processos e práticas de gestão de pessoas. No último artigo, exploramos a importância de um recrutamento estruturado.
Agora, vamos seguir a jornada falando sobre o que acontece depois da contratação: o onboarding.
Mas antes, é importante ampliarmos um pouco mais o olhar e entender que toda essa jornada faz parte de algo maior: os subsistemas de RH.
Quais são os subsistemas de RH?
De forma prática e integrada, os cinco principais subsistemas de RH, segundo Chiavenato, são
- Provisão de recursos humanos
É o momento de atrair e selecionar pessoas para os cargos. Envolve captação, análise de perfil, planejamento do processo seletivo e decisão final. - Aplicação de pessoas
Envolve a chegada do colaborador na empresa ou seja, o onboarding. É onde ocorre a inserção organizacional, apresentação de equipe, cultura e rotinas de trabalho. - Manutenção de pessoas
Foca na retenção do time, mantendo motivação, reconhecimento, benefícios, planos de carreira e bem-estar. - Monitoramento de pessoas
Refere-se ao acompanhamento por meio de indicadores como desempenho, banco de horas e clima. Envolve também o uso de análises de dados (People Analytics) para decisões mais pautadas em evidência. - Desenvolvimento de pessoas
Engloba capacitação e evolução profissional por meio de treinamentos, programas de educação corporativa e ações de crescimento individual e coletivo.
Todos esses subsistemas se conectam e quando bem planejados, oferecem às empresas maior coerência, produtividade, engajamento e sustentabilidade. Hoje queremos aprofundar o subsistema Aplicação de pessoas, por meio do onboarding.
O que é onboarding?
Vamos ao nosso letramento do dia. Onboarding é o processo de integração de um novo colaborador à cultura, estrutura e operação da empresa. É o período em que a pessoa recém-chegada começa a entender como as coisas funcionam por ali, quem é quem, o que se espera dela e como ela pode contribuir.
O onboarding vai muito além de apresentar o e-mail corporativo ou o layout do escritório. Ele é, na prática, o momento de acolher, orientar e criar vínculos. E mais do que isso, é quando começamos a construir segurança psicológica para essa nova relação de trabalho.
O que é segurança psicológica?
Segurança psicológica é a percepção de que se pode expressar opiniões, dúvidas, erros ou ideias sem medo de represálias, humilhação ou julgamento. Em ambientes com segurança psicológica, as pessoas se sentem livres para aprender, contribuir e se desenvolver com autenticidade.
O conceito foi amplamente estudado por Amy Edmondson, professora da Harvard Business School, que observou como times com alta performance, especialmente no setor da saúde, não eram os que cometiam menos erros, mas os que falavam mais abertamente sobre eles. Isso criava um ambiente seguro para aprender e melhorar.
Outro nome importante é Timothy R. Clark, autor do livro The 4 Stages of Psychological Safety, que propõe quatro estágios da segurança psicológica:
- Sentir-se incluído
- Sentir-se seguro para aprender
- Sentir-se seguro para contribuir
- Sentir-se seguro para desafiar o status quo
Esses estágios são diretamente impactados pela forma como o colaborador é recebido nos seus primeiros dias.
Como fazer um bom onboarding com base em neurociência e segurança psicológica?
A neurociência nos mostra que o cérebro humano reage com estresse e ansiedade diante do desconhecido. Isso significa que os primeiros dias de trabalho em um novo ambiente ativam áreas cerebrais ligadas à ameaça, ou seja, acionamento da amígdala, área do cérebro responsável por luta, fuga ou congelamento. Por isso, um onboarding bem feito e regado de acolhimento, organização e previsibilidade, ajuda a reduzir essa carga emocional e criar um ambiente propício para aprendizagem, conexão e desempenho.
Veja algumas ações práticas para um onboarding eficaz:
- Prepare o ambiente antes da chegada
Garanta que as ferramentas de trabalho estejam prontas, que o organograma esteja atualizado e que todos saibam quem está chegando. Isso transmite cuidado, previsibilidade e organização. - Acolha com presença, não apenas com processos
Reserve um momento real de boasvindas. Pode ser uma reunião com o líder direto, um café com a equipe ou roda de conversa. A ideia é gerar conexão e senso de pertencimento. - Apresente a cultura, os valores e os combinados de convivência
Mais do que saber o que fazer, o novo colaborador precisa entender como se espera que se faça. Isso ajuda a alinhar expectativas e reduzir ruídos futuros. Fale seus valores como líder, diga do que gosta e do que não gosta. Muito se fala sobre o que é aceito e pouco se sabe sobre o que não é permitido e bem-vindo, portanto, lembre de falar das duas coisas. - Promova acompanhamento ativo nos primeiros 90 dias
Checkins regulares ajudam a entender bemestar, dificuldades e avanços do novo colaborador. Além disso, estabeleça feedbacks construtivos e apoiadores desde o início. - Dê clareza de metas, prazos e entregas
Ambientes estruturados reduzem a ansiedade. Metas bem definidas ativam o sistema de recompensa cerebral e aceleram a confiança e a motivação. - Estimule perguntas e permita errar
Determine espaços formais e informais para dúvidas. Encoraje o novo membro a perguntar e errar – isso faz parte do aprendizado e dá base à segurança psicológica.
Para fechar
Onboarding não é um momento pontual, é um processo que começa antes da chegada e segue até que a pessoa se sinta parte do time, compreenda seu papel e contribua com autonomia.
Empresas que investem nessa integração retem mais talentos, reduzem o turnover e constroem ambientes de confiança desde o primeiro dia.
Se a sua empresa ainda não estruturou esse processo, comece com ações simples, porém intencionais. Lembre-se: o que começa bem tende a evoluir melhor.
Nos próximos artigos, vamos explorar outras etapas importantes da jornada do colaborador, como feedback, desenvolvimento contínuo e desligamento consciente.
Nos encontramos na próxima parada da nossa trilha.