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Os Meus Ninguéns

Tereza Du’Zai
poeta, contista, cronista e professora de Língua Portuguesa e Literatura

Os meus ninguéns não são os ninguéns de Eduardo Galeano;
Os meus ninguéns, também filhos de ninguéns, pensam que são donos de tudo;
Os meus ninguéns vivem a vida explorando alguéns;
Os meus ninguéns, pouco são, embora acreditem muito ser;
A maioria dos meus ninguéns desconhece a própria língua, mas propaga estrangeirismos;
Muitos dos meus ninguéns são religiosos e supersticiosos;
Vislumbrados e insensíveis, compram excentricidades por obra de arte,
Gastam exorbitâncias em shoppings centers
E pechincham artesanatos à beira-mar.
Os meus ninguéns não são humanos, mas aberrações humanas;
Desconhecem o significado de cultura, desprezam o folclore, mas se julgam cultos sobre todos os alguéns,
Eles não têm feições, têm maquiagens e plásticas;
Eles não conversam, encenam;
Eles não têm identidade, têm aparências;
Eles aparecem nas colunas sociais,
Mas valem menos do que a vaidade que os mata.

Absolvição
A poesia que eu conheço é a poesia das sirenes, das páginas policiais,
dos gritos ignorados nos corredores dos hospitais públicos; a poesia que eu conheço é a poesia do preconceito,
a poesia dos presídios, dos asilos, dos prostíbulos, das calça- das habitadas;
é a poesia do câncer que devora,
do filho que não vinga, do filho que não volta, da bala perdida que nunca se perde,
do pai de seis e do pai aos dezesseis;
a poesia que eu conheço não voa, não anda, rasteja.
A poesia que eu conheço jamais será declamada porque existe para ser cuspida,
vomitada, tragada, bebida, injetada;
a poesia que eu conheço existe para ser gritada na voz do andarilho,
do velhaco, do moribundo, do bêbado, do sujo, do esfomeado, do marginal e do louco.
Porque os loucos também sofrem.

Sangria
Como o mendigo comemora a esmola que amordaça,
Resignamo-nos à crueldade dos que estão no comando
E seguimos condolentes por caminhos lodosos,
Crentes de que a humildade e a persistência nos salvarão,
Se não da vida, talvez na morte.
A religião e a ação do invisível nos evocam,
E nos aniquilam com suas carícias perversas.
A ciência nos felicita e nos subjuga com suas descobertas.
Gutenberg, Niépce, Dagarre, Friese-Greene, Marconi…
Tudo o que lemos, ouvimos, reproduzimos,
O movimento infernal das ancas universais,
A dança avassaladora da grande fera ululante;
A miséria, a promiscuidade, a guerra santa.
O Livro dos Espíritas, a Bíblia, a Torá, o Alcorão – substratos da ilusão humana.
Punhaladas políticas, venenos morais.
Bocejamos entre lobos e víboras
E nos alimentamos do vômito cultural de nossos ancestrais,
Somos todos hipócritas, somos todos irmãos

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