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Para refletir (in-segurança)

Como sempre, nas ocorrências policiais o interesse das instituições que compõem “o consortio” só acontece quando o fato gerado pode de alguma forma trazer rentabilidade financeira ou ser um meio de promoção pessoal. Surgem então os discursos de psicólogos, sociólogos, antropólogos, políticos, da mídia, da igreja e da família. Não seria diferente nos casos ocorridos na cidade de Tubarão recentemente, onde o vitimador, até então invisível no meio social por sua condição marginalizada socialmente, agora protagonista de uma ação onde todos os grupos que compõem a sociedade começam a analisar a conduta típica anti-jurídica e passam a opinar sobre o que deveria ser realizado para sanar a crise originada e sufocar o mal anti-social, evocando os poderes constituídos a “solucionarem o problema”.

Surgem então as teorias de vítima da sociedade, da falta de interesse do estado em relação ao cidadão pouco assistido e das falhas no convívio familiar e da polícia. Teorias essas que apenas perduram durante a crise e muitas vezes um pouco após, voltando a sociedade a sua vida normal com o desfecho do drama ora vivido, com todas as suas mazelas como sempre no esquecimento.

Sobra então para as entidades policiais intermediarem as crises, sem muitas das vezes estarem devidamente preparados para tal mister. Sendo constantemente cobrados por todos os seguimentos sociais, que em momento algum se preocupam com a verdadeira função social da polícia e com o preparo técnico-profissional de seus integrantes. Restando a estes, muitas vezes, agir de maneira empírica, fazendo o papel social de órgão repressor, mantedor do poder legitimado da força e servindo como uma espécie de muralha entre o marginalizado, que tem de permanecer invisível ao resto da sociedade. Os inseridos socialmente procuram fechar os olhos para a cruel realidade existente em um mundo globalizado e capitalista, onde muitos pouco têm, e o inverso também é real.

Assistindo a um documentário em que aborda a “chacina da candelária”, como ficou conhecida a matança de menores de rua na cidade do Rio de Janeiro, nota-se com clareza o “discurso do medo”, a sociedade procura encontrar um inimigo comum, mesmo que sejam menores de idade, abandonados pelos sistemas instituídos. Eliminando-os, eliminam-se os problemas, ficando assim a sociedade mais aliviada e sem medo para discutir sobre a correção e justeza do ato praticado. Vivemos em uma sociedade onde os valores são ditados pelo poder econômico. A eles tudo pode, sendo que sobra ao resto uma disputa cruel, onde a vida ou morte é ocorrência plena e sem sentido.

Podemos assistir a isso diariamente nos noticiários televisivos, como vimos também ocorrer no episódio do ônibus 174, na cidade do Rio de Janeiro, onde o protagonista Sandro do Nascimento, em um instante, demonstra aquilo que socialmente procura-se esconder, fazendo vir à tona todo o despreparo das agências que compõem o estado e também o desprezo que é tratado aquele que não é socialmente viável.

Mostrando que não é interessante investir naquela pessoa de “conduta irregular”, pois tudo pode ser estigmatizado como crime, existe uma tendência social em criminalizar, aplicando no sistema normativo e penal os deveres de purificação e reinserção social. Nos séculos 18 e 19, as prisões eram projetadas como fábricas de disciplina. Atualmente, são as protagonistas de excluídos sociais, que carimbam o passaporte de ida, sem volta, à criminalidade e à morte.

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