Aproxima-se a hora da comemoração de mais uma Páscoa cristã. Depois de uma longa e resignada quaresma, os homens e mulheres de boa vontade sentar-se-ão à mesa para celebrar a comunhão com Jesus, ícone da revolução por intermédio do amor e do perdão. Em tempos de revoltas civis como as da Líbia e do Egito, as quais ceifaram tantas vidas, o exemplo de Cristo convida-nos a uma reflexão mais profunda sobre as relações sociais de poder e democracia. Até quando existirão sistemas políticos e impérios de consumo capazes de submeter a vontade de toda a população aos caprichos de figuras ou grupos reduzidos de pessoas desequilibradas?
O Japão agora sofre com outro tipo de desequilíbrio: o ambiental. Não bastasse a devastação sofrida pelos abalos sísmicos, paira novamente sobre o país a ameaça de nova contaminação nuclear. Tragédia? Talvez. No entanto, não podemos esquecer que as escolhas humanas dão o tom da dimensão dos estragos. A ocupação desenfreada de habitações, fruto da explosão demográfica potencializa mortes e danos. Isso, aliado ao uso irracional de energia, gera desespero e dor à humanidade, a qual percebe claramente sua condição frágil diante de situações adversas. Nem tudo está ao nosso alcance, muito embora estejamos ávidos pelo poder.
O amor é um sentimento muito mais amplo do que estamos acostumados a conceituar. Reduzimos nossa capacidade de amar às paixões, aos familiares e amigos. Agora, ampliar isso aos distantes, desconhecidos e principalmente aos algozes constitui-se o verdadeiro desafio proposto pelo sacrifício do Filho da Tribo de Davi. Os ritos burocratizaram o simbolismo da paixão nazarena. Tem pouco efeito uma vez por ano lavarmos os pés dos pobres e no resto do ano relegar a eles as migalhas de nossa vaidade. Gesto vazio de amor. Amamos e idolatramos os dez mais ricos da Forbes, o campeão do BBB, as estrelas do futebol. Uma epopeia da mediocridade.
O perdão não consiste em descaracterizar o mal que nos foi imputado. Significa virar a página. Oportunizar uma nova possibilidade de concluir bem o que começou errado. Kadafi e Mubarak terão de responder pelas atrocidades cometidas. Porém cabe-nos entender que eles personificaram a alucinação coletiva do exacerbado ego humano. Assim, o primeiro passo para a redenção de nossos pecados está em nos perdoarmos.
Redimirmo-nos das pequenas atrocidades provocadas no cotidiano por nosso egoísmo, desprezo ou omissão. O mal será sempre mal, não importa a dimensão. Por isso pratique o perdão, não como justificativa para permanecer no erro, mas como plena transição ao acerto, à transformação.
Na sua Santa Páscoa, ame e perdoe! Saúde e Paz!!!
