Início Opinião Pedrão, o “marvadão”

Pedrão, o “marvadão”

Pedrão é um típico brasileiro, desses que acordam cedinho para enfrentar o dia de trabalho. Orgulha-se de ser um trabalhador exemplar, sendo espelho de honestidade e caráter. Trabalha na maior empresa de sua cidade, e é considerado o braço mais forte na mão-de-obra pesada. Fica com o pé atrás quando seu patrão vem lhe dar tapinhas nas costas, como forma de elogio pelo bom trabalho executado.

Costuma dizer o chefe para os outros empregados:
– Esse Pedrão é mesmo “marvadão!”
Depois de 20 anos de serviços prestados, Pedrão adquiriu algumas doenças em decorrência daquela “marvadeza” toda, no entanto, aguentava firme o tranco no trabalho. Faça chuva ou sol, nunca faltou com suas responsabilidades de trabalhador. Tempos atrás, ele foi ao médico e o doutor recomendou que tomasse mais cuidado com sua saúde. Também receitou alguns remédios para tratar da artrite, artrose, osteoporose, bico de papagaio, reumatismo… O mais preocupante de todos os males é um desvio na coluna que surgiu de tanto Pedrão executar o serviço pesado. Com tudo isso, Pedrão recebia no final de mês um salário miserável. Mesmo assim, era um homem feliz.

Certo dia, chegou à empresa que Pedrão trabalhava um homem que firmaria emprego no escritório, indicado pela chefia. Os proletários achavam estranhas algumas atitudes advindas da gerência, com relação à contratação de certas pessoas, visto que a remuneração deles é superior em comparação aos outros membros da empresa, e a função, misteriosa. Investigaram e descobriram que o único trabalho que eles exercem é o de teclar no Orkut, MSN, entre outros atrativos que a internet pode oferecer. Quando ficou sabendo, Pedrão teve uma crise de úlcera nervosa. Não conseguia assimilar o porquê de tanto desperdício de mão-de-obra e recursos financeiros.

Pegou sua bicicleta no final do expediente e foi embora com aquela dúvida na cabeça. Ele costumava ir direto para casa, mas, naquele dia, devido aos problemas, resolveu parar no boteco para tomar um amansa “loco.” Estava com um nó na garganta, sentindo-se desvalorizado como trabalhador e, principalmente, como ser humano. Não conseguia entender o sistema de valorização pessoal adotado pela sua empresa. Enquanto ele e outros funcionários antigos estavam estagnados há praticamente 20 anos, outros eram subitamente contratados e super valorizados, independente de qualificação profissional.

Estacionou sua bicicleta em frente ao estabelecimento. Já da entrada, gesticulou para Zé, o dono do boteco. Pediu um martelinho de losna e um prato de picadinho de torresmo, degustou. As horas foram passando, Pedrão pediu mais uma, outra, e depois a “saideira”. Quando deu por conta, já passava das 11 da noite. Embriagado pela angústia da incógnita do sistema no qual era inserido, atrelado a algumas doses de cachaça, saiu ziguezagueando com sua bicicleta pela rua. Infelizmente, não conseguiu chegar muito longe. Poucos metros depois, perdeu o controle invadiu a pista e foi atropelado pelo caminhão da coleta do lixo. Pedrão morreu naquela noite trágica, e sua dúvida pereceu consigo. Ficaram somente as lembranças de seus colegas de trabalho.
Pedrão nunca mais apareceria no departamento público municipal. Onde era concursado, efetivado e lotado há mais de 20 anos.

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