Início Economia Quinta da Neve transforma vinhos de altitude em referência mundial na Serra...

Quinta da Neve transforma vinhos de altitude em referência mundial na Serra Catarinense

FOTO UNITVSC Divulgação Notisul

FOTO UNITVSC Divulgação Notisul

Tempo de leitura: 7 minutos

A Quinta da Neve, primeira vinícola de vinhos de altitude da Serra Catarinense, ajudou a transformar São Joaquim em um dos principais polos vitivinícolas do Brasil. Quase três décadas após o plantio das primeiras videiras, a propriedade acumula premiações internacionais, consolidou a reputação da região e segue inovando sob o comando da enóloga Bettina de Bem, doutora em viticultura e enologia.

Em 1999, quando a Quinta da Neve plantou suas primeiras videiras em São Joaquim, pouca gente acreditava que a Serra Catarinense poderia produzir vinhos finos de qualidade. Hoje, a vinícola acumula reconhecimentos internacionais, ajudou a consolidar a Indicação Geográfica dos Vinhos de Altitude e se tornou referência para as cerca de 30 vinícolas que atuam na região.

À frente desse trabalho está a enóloga Bettina de Bem, nascida e criada na Serra Catarinense.

“O bichinho do vinho me picou e não consegui mais largar”, brinca Bettina.

Ela começou a trabalhar no setor ainda durante a graduação em Agronomia, em 2006, quando um professor da universidade a apresentou ao laboratório de elaboração de vinhos da região.

Desde então, construiu uma carreira dedicada à vitivinicultura. Fez mestrado, doutorado e passou um ano na Itália, na região do Trentino-Alto Adige, desenvolvendo pesquisas em um dos principais institutos vitivinícolas do país europeu.

“Me sinto muito sortuda de ter encontrado uma profissão que traz tanta alegria. A enologia me escolheu e sou muito realizada com isso.”

O terroir faz toda a diferença

Muito além do significado literal de “terreno”, o conceito de terroir reúne todos os fatores que influenciam a identidade de um vinho.

Segundo Bettina, o terroir envolve altitude, clima, solo, acidez, rocha matriz — que na Serra Catarinense é o basalto — e também o conhecimento das pessoas responsáveis pelo cultivo e pela elaboração dos vinhos.

“O terroir que a gente fala no mundo do vinho é o lugar onde você está: a altitude, o clima, as condições do solo, a acidez, a pedra mãe, que aqui é o basalto. Tudo isso vai interferir na produção. Mas vai além: inclui também o saber fazer das pessoas que estão lá elaborando o vinho, dos funcionários que colhem a uva, a enologia, como é processado esse vinho. Tudo isso engloba o terroir.”

Em São Joaquim, onde os vinhedos estão, em sua maioria, acima de 1.300 metros de altitude, o frio intenso favorece o acúmulo natural de açúcar nas uvas.

Com isso, não é necessária a chaptalização, prática utilizada em outras regiões para aumentar artificialmente o teor alcoólico do vinho.

“Pela altitude e pelas características do nosso terroir, a gente sempre acumula uma quantidade grande de açúcar para ter o álcool que a gente acha interessante. O que vem do campo já é suficiente para garantir a qualidade.”

Das castas francesas às portuguesas e italianas

A Quinta da Neve iniciou sua produção com variedades francesas como Cabernet Sauvignon, Merlot e Sauvignon Blanc.

Com a evolução do projeto, a vinícola passou a cultivar também castas portuguesas, como Touriga Nacional e Alvarinho, com a consultoria do enólogo português Anselmo Mendes.

Mais tarde vieram variedades italianas, como Montepulciano e Sangiovese, que também se adaptaram ao terroir da Serra Catarinense.

Entre os destaques da produção está o Sauvignon Blanc, comercializado ainda no mesmo ano da colheita.

“É um vinho bem leve, bem fresco, sempre o vinho do ano. Quanto mais perto da colheita você degustar, melhor.”

Já os tintos passam por um processo mais longo de amadurecimento.

“Nossos vinhos tintos são muito longevos. Tem vinhos de 10, 15 anos que você pode manter em casa e degustar no ponto ótimo de degustação.”

Premiações colocaram São Joaquim no mapa mundial do vinho

Dois momentos marcaram a trajetória internacional da vinícola.

O primeiro ocorreu em 2010, quando o crítico Jorge Lucki colocou o Pinot Noir da Quinta da Neve entre os dez melhores do mundo.

“Foi um marco histórico. O pessoal começou a pensar: estão fazendo vinho de qualidade nessa região.”

O segundo reconhecimento veio em 2023.

A Touriga Nacional da vinícola participou de um concurso na Itália e conquistou a maior nota entre mais de 400 vinícolas europeias, recebendo o Duplo Ouro.

“A gente esperava ganhar um ouro, mas ter a maior nota do concurso inteiro foi algo que não esperávamos mesmo. Foi um orgulho enorme.”

Leão Baio e Lomba Seca valorizam a identidade regional

Entre os rótulos da vinícola, o Leão Baio nasceu com uma proposta mais descontraída, voltada a consumidores que estão iniciando no universo dos vinhos finos.

O nome homenageia o puma, também conhecido como leão-baio, animal típico da região onde está localizada a vinícola, na localidade de Lomba Seca.

“É uma homenagem a esse animal e à nossa região. E virou um case de sucesso.”

Já o rótulo Lomba Seca leva o nome da comunidade onde estão os vinhedos, reforçando a ligação entre o vinho e seu local de origem.

Falta de mão de obra preocupa o setor

Apesar do crescimento da vitivinicultura na Serra Catarinense, a escassez de profissionais qualificados ainda representa um dos principais desafios para o setor.

Segundo Bettina, a distância dos grandes centros e a baixa população regional dificultam a contratação de trabalhadores tanto para os vinhedos quanto para as áreas de produção e enoturismo.

“É um entrave grande que a gente escuta em vários setores, mas para nós é especialmente crítico. Cada vez mais vinícolas e precisando de mais pessoas para trabalhar. E a nossa serra é um pouco distante de polos grandes.”

Ela destaca a importância do curso de Enologia do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), no Campus Urupema, para formar novos profissionais, embora reconheça que a demanda do setor cresce em ritmo superior à oferta de mão de obra.

Esta reportagem faz parte do Estúdio de Inverno 2026, projeto dos veículos UNITVSC, portais Notisul e UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina de Criciúma, e rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.

Sair da versão mobile