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Durante 32 anos, o engenheiro agrônomo Saul Paulo Bianco adiou o sonho de construir uma vinícola. O projeto, alimentado desde a infância entre os parreirais da família em Caxias do Sul (RS), só saiu do papel após a aposentadoria. Hoje, a Leone di Venezia, instalada em São Joaquim, na Serra Catarinense, produz 14 rótulos premiados e se destaca por cultivar variedades italianas raras adaptadas ao terroir de altitude.
A história da vinícola é também a história de uma família de descendentes italianos que preservou, por gerações, a tradição do cultivo da uva e da produção de vinho.
Um sonho adiado, mas nunca abandonado
Filho e neto de produtores de vinho para consumo familiar, Saul cresceu cercado por vinhedos em Caxias do Sul. A ligação com a vitivinicultura foi tão forte que ele escolheu cursar Agronomia, em Porto Alegre, pensando em abrir uma vinícola.
Os planos, porém, mudaram no último semestre da faculdade. Uma oportunidade profissional em uma grande empresa adiou o projeto por mais de três décadas.
Mesmo distante do campo, Saul nunca deixou de estudar. Aproveitou viagens ao exterior para conhecer vinícolas, acompanhar tendências e aprofundar conhecimentos sobre produção de vinhos.
“Esse desvio de rota postergou o sonho, mas eu acho que aprimorou. Porque fui estudando muito e visitando regiões produtoras para aprender o que estava sendo feito em outros lugares”, conta.
Da Itália para a Serra Catarinense
A origem da família Bianco remonta à região de Vicenza, no Vêneto, norte da Itália. Os bisavós de Saul chegaram ao Brasil em 1892, trazendo consigo a tradição de cultivar videiras.
O nome Leone di Venezia faz referência ao leão alado de São Marcos, símbolo de Veneza e homenagem aos imigrantes que construíram a história da família.
“É uma homenagem ao bisavô, ao avô, ao pai e ao trabalho dos imigrantes que vieram em momentos difíceis e desbravaram uma nova terra.”
A escolha de São Joaquim
Antes de definir onde implantaria o projeto, Saul e a esposa visitaram mais de 30 propriedades na Serra Catarinense.
A escolha foi por uma área localizada em São Joaquim, a cerca de 1.300 metros de altitude, considerada uma das regiões mais favoráveis do Brasil para a produção de vinhos finos.
Em 2008, começaram os primeiros plantios.
Importação de 26 variedades italianas
O diferencial da Leone di Venezia foi apostar em variedades italianas pouco conhecidas no Brasil.
Ao todo, Saul importou 26 tipos de uvas diretamente da Itália, produzidas pela tradicional viveirista Rauscedo.
O processo, entretanto, enfrentou dificuldades. Na primeira tentativa, as mudas foram barradas durante a quarentena sanitária e precisaram retornar ao país de origem.
Na segunda importação, com apoio de uma empresa especializada, as plantas chegaram à propriedade e deram início a um dos maiores experimentos com castas italianas já realizados na Serra Catarinense.
Nem todas as uvas resistiram ao clima
Os testes mostraram que nem todas as variedades suportavam as condições climáticas da região.
A tradicional Nebbiolo, responsável pelo famoso Barolo italiano, foi uma das principais decepções.
Segundo Saul, a brotação precoce fazia com que as geadas tardias destruíssem a produção antes mesmo da formação dos cachos.
Após anos de experimentação, apenas 11 variedades apresentaram desempenho satisfatório.
Entre elas, destacam-se as uvas Sangiovese e Montepulciano, que hoje representam a maior parte dos vinhedos da propriedade.
Outra raridade é a Refosco del Peduncolo Rosso, cultivada comercialmente apenas pela Leone di Venezia no Brasil. O vinho elaborado com essa variedade conquistou, no ano passado, o prêmio de melhor vinho tinto de outras castas em uma avaliação nacional.
O inverno marca o início da próxima safra
Enquanto os visitantes encontram os parreirais sem folhas durante o inverno, é justamente nesse período que começa o trabalho para a safra seguinte.
Segundo Saul, a poda inicia um novo ciclo produtivo que se estende até a colheita, realizada entre março e maio.
Entre os rótulos produzidos está um vinho elaborado pelo método italiano de apassimento, técnica em que as uvas permanecem secando após a colheita para concentrar açúcares, aromas e compostos naturais antes da fermentação.
O resultado são vinhos mais estruturados e complexos.
Vinhos premiados e selo de origem
Hoje, a Leone di Venezia comercializa 14 rótulos e acumula premiações em concursos nacionais.
Grande parte da produção possui o selo da Indicação Geográfica dos Vinhos de Altitude de Santa Catarina, certificação concedida apenas a vinhos produzidos acima de 900 metros de altitude e que atendem critérios rigorosos de qualidade.
Para Saul, esse reconhecimento ainda precisa ser mais valorizado pelo consumidor brasileiro.
“Na Itália e na França, uma indicação geográfica agrega muito valor ao vinho. Aqui ainda precisamos fortalecer essa cultura para que o consumidor reconheça esse diferencial.”
Enoturismo fortalece a Serra Catarinense
Além da produção de vinhos, a Leone di Venezia integra o crescente roteiro de enoturismo da Serra Catarinense, região que vem consolidando sua reputação nacional na produção de vinhos de altitude.
A combinação entre clima frio, altitude elevada, tradição vitivinícola e investimentos em tecnologia faz de São Joaquim um dos principais polos brasileiros do setor, atraindo visitantes interessados em conhecer vinícolas, degustar rótulos premiados e vivenciar a cultura do vinho.

Esta reportagem faz parte do Estúdio de Inverno 2026, projeto dos veículos UNITVSC, portais Notisul e UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina de Criciúma, e rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.