Caixa Econômica Federal reduziu para 50% o limite para financiamento de imóveis usados. Medida temporária deve impactar o mercado, que dá sinais de recuperação
Lysiê Santos
Tubarão
Sabe aquele ditado “quem compra terra nunca erra”? Bom, milhões de brasileiros sonham em ter seu ‘cantinho’. Um imóvel próprio, seja casa ou apartamento, é sempre um bom negócio. Antigamente, a não ser que você tivesse um bom dinheiro disponível, era muito difícil comprar imóvel no Brasil. A maioria dos bancos financiava apenas a metade – ou menos – do valor total do bem, o que obrigava as pessoas a passar anos acumulando reservas até ter saldo suficiente para fechar um negócio. No entanto, com o crescimento econômico, e a facilidade de acesso aos financiamentos e expansão do crédito, milhões de brasileiros puderam, enfim, realizar o sonho da casa própria. Mas ontem o avanço conquistado a duras penas sofreu um revés.
A Caixa Econômica Federal anunciou a redução do limite para o financiamento de imóveis usados para até 50% do valor. Até hoje, clientes podiam financiar até 60% ou 70% do montante, dependendo da operação contratada. A medida reforça o aperto das condições de crédito para o setor, que já sofreu restrição no mês passado.
Nas operações com taxas reguladas – principal segmento da Caixa -, o valor concedido em novas operações cresceu 24% no trimestre encerrado em julho na comparação com os três meses até abril. Entre maio e julho, foram concedidos R$ 2,4 bilhões nesse tipo de operação em todo o mercado. Diante desse cenário, o banco estatal já havia reduzido limites para o crédito imobiliário. O teto para o financiamento havia sido reduzido de 90% para 80% no caso dos imóveis novos e para os patamares entre 60% e 70% no caso dos usados.
Mudanças causam transtornos
A redução pode causar um impacto negativo no setor imobiliário. A socióloga Rosa Nice Ladislau já sente os efeitos da medida provisória. Ela possui um apartamento no bairro Coqueiros, em Florianópolis e colocou a venda com o intuito de adquirir um novo imóvel em Tubarão. “Meus pais moram em Pescaria Brava e gostaria de estar mais perto deles já que estão em uma idade avançada. Mas com a redução do financiamento, não consigo achar comprador para o meu apartamento”, explica. Com a dificuldade de venda do imóvel, Rosa teve que desistir da ideia de morar na Cidade Azul e agora aguarda o aquecimento do setor para tentar a venda novamente.
Para o presidente do Sindicato da Habitação de Florianópolis e Tubarão (Secovi), Fernando Willrich, a medida está na contramão da retomada do crescimento do mercado imobiliário e da recuperação da crise econômica. “Em um cenário de necessidade de medidas para movimentar a economia, num mercado que depende muito do financiamento para a aquisição, essa redução é altamente negativa. Ao prejudicar a velocidade da retomada do crescimento do mercado imobiliário, o governo atinge um segmento que historicamente é responsável por importante parcela do PIB e do emprego no país. Ao mesmo tempo, é um dos primeiros a sentir a crise e um dos últimos a retomar o crescimento”, explica.
Caixa deve anunciar suspensão temporária dos financiamentos
A Caixa também deverá anunciar a suspensão temporária dos financiamentos com interveniente quitante – quando um cliente procura a instituição para financiar a compra de imóvel que ainda está alienado em outra operação de financiamento. Nessa transação, o banco quita a dívida com a instituição anterior com a criação de um crédito para o novo comprador. O delegado do Sindicato dos Corretores de Imóveis de Santa Catarina (sindimóveis), Vilson Luiz Back, ressalta que o mercado imobiliário tem dado sinais de recuperação e a redução do financiamento preocupa o setor. “Tivemos uma reunião com os representantes da Caixa que informaram que cerca de 39 mil imóveis foram retomados por falta de pagamento dos financiamentos. Agora o banco precisa se reorganizar. O consumidor hoje está inseguro com a instabilidade financeira e a alta do desemprego. Esses fatores impactam o mercado imobiliário”, enfatiza.
Dados do Banco Central mostram que a carteira de crédito imobiliário soma atualmente R$ 555,1 bilhões, sendo R$ 490 bilhões em operações com taxas reguladas – juros limitados pelo governo – e R$ 65,1 bilhões em financiamentos com juros de mercado. A grande fonte de recursos para o financiamento imobiliário é a caderneta de poupança e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Dos recursos da poupança captados pelos bancos, 80% devem ser emprestados para a compra da casa própria com juros regulados e 20% podem ser alocados com taxas livres.
