Início Opinião Resposta ao artigo “Minha filha grávida aos 11”

Resposta ao artigo “Minha filha grávida aos 11”

Com relação ao artigo publicado no Notisul, em 11 de abril de 2014, intitulado ‘‘Minha filha grávida aos 11”, gostaria de esclarecer alguns pontos técnicos, já que o próprio autor reconhece que não é especialista no assunto. Eu não sou especialista em HPV, mas trabalho com HIV e outras doenças infecciosas, e ao longo de minha vida acadêmica e profissional, realizei várias pesquisas sobre comportamento sexual e doenças sexualmente transmissíveis (DST), inclusive entre adolescentes.
 
A Campanha Nacional de Vacinação contra o HPV não é uma medida exclusivamente brasileira, é uma recomendação da Organização Mundial de Saúde (http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs380/en/), justamente pelos inúmeros casos de infecção, resultando em câncer cervical e mortalidade, dados inclusive apresentados no artigo em questão. A vacina já existe há certo tempo em países desenvolvidos, já estava disponível na rede privada (vacina paga), só que agora se propiciou o acesso a ela no Sistema Único de Saúde, de forma gratuita. A imunoprofilaxia ou vacinação é a melhor medida de custo-efetividade contra diversas doenças, incluindo o câncer cervical, reduzindo as hospitalizações e tratamentos mais onerosos e de grande sofrimento aos pacientes, além do impacto social em decorrência da morbidade e mortalidade relacionadas ao HPV.
 
Apesar de o HPV ser transmitido por via sexual (genital-genital, oral-genital ou manual-genital), prioritariamente, há outras formas de transmissão, inclusive no contato de pele e mucosas, independente da penetração vaginal ou anal. Por esse motivo, o uso do preservativo é importante, mas não impede a transmissão de forma eficaz como em outras doenças sexualmente transmissíveis, as DSTs.
 
O motivo para escolher a faixa etária mencionada se deve a alguns fatores: 1) A vacina é muito mais eficaz em pessoas que ainda não tiveram contato com o vírus, por isso se acredita que na faixa etária dos 9 aos 13 anos de idade ainda não houve contato sexual ou íntimo na maioria dos casos; e 2) além disso, quanto mais jovens são os pacientes, maior a produção de anticorpos em quantidade suficiente para prevenir a infecção por longos períodos.
 
A média de idade da sexarca (primeira relação sexual) no Brasil é estimada em 15 anos para meninas. Como isso é uma média, significa que algumas meninas têm contato sexual mais precoce, além dos casos de abuso sexual ou estupro entre crianças e adolescentes. Por isso, discordo do incentivo ao sexo mediante a vacinação contra o HPV que o senhor insinua pela escolha da população alvo e faixa etária da campanha, pautada em diversos estudos e modelos matemáticos. Prova disso é que desde 1998 a vacina contra hepatite B é dado no 1º mês de vida e esta infecção também ocorre prioritariamente por relação sexual ou contato com sangue e derivados.
 
Além do mais, a vacina não protegerá contra gravidez indesejada e outras DSTs, havendo necessidade de utilizar preservativo em todas as relações sexuais, uso combinado de outros métodos contraceptivos, e consulta periódica com médico ginecologista para orientações e realização do Papanicolau entre mulheres sexualmente ativas. Há também diversos subtipos de HPV, e a vacina não protege contra todos eles.
 
Outro dado incorreto no seu texto é sobre a imposição da vacina. É antiético vacinar qualquer pessoa sem o seu consentimento informado ou, no caso de menores de idade, por seus responsáveis legais.
 
Mas concordo que há pouco conhecimento sobre a doença e os motivos dessa campanha entre a população em geral, pois para nós, profissionais de saúde e pesquisadores, ela é uma importante medida no combate ao HPV. Talvez por isso, para o senhor e para inúmeros pais haja relutância em aderir à vacinação, pois tudo que é novo, sempre gera ansiedade. Basta lembrar da história da Revolta da Vacina no início do século 20. Hoje, não existe mais obrigatoriedade, mas conscientização e recomendação amparadas por inúmeras publicações científicas a esse respeito.
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