Início Opinião Roda dos expostos 2011

Roda dos expostos 2011

 

Em 2001, Maria Emília Azevedo e equipe ofereceram aos catarinenses um (filme) curta com uma cena de alta densidade emocional em que uma jovem mãe, valendo-se do quase anonimato da escuridão da noite, deposita uma bela criança recém-nascida na roda dos expostos. Ao girar a roda, a criança desaparece das vistas e da vida da mãe. Certamente, jamais desapareceria de sua memória, de seus remorsos, de seus sentimentos de culpa.
 
O instituto da roda dos expostos ou dos inocentes revela um dos papéis que santas casas e instituições religiosas exerciam num cenário em que a maternidade “clandestina” enfrentava a condenação mais fria e absoluta das famílias e da sociedade.
 
Em Florianópolis, ou melhor, na Desterro do século 19, o Imperial Hospital de Caridade, da nossa quase tricentenária Irmandade do Senhor dos Passos, cumpriu a missão socialmente heróica de acolher os enjeitados.
 
O Tribunal de Justiça de São Paulo, segundo O Estadão de 19 de julho, dá contas de que nos últimos 12 meses, em levantamento que abrange menos de 20% do estado, a cada três dias, uma mãe entregou seu filho recém-nascido aos cuidados da justiça. Ou seja, 102 mães desistiram de seus filhos nascidos vivos. Psicóloga ouvida diz que essas mulheres, geralmente, não se posicionam como mães e guardam pouco sofrimento. Nos dias de hoje, boa parte é de vítimas do crack.
 
Na mesma reportagem, informa-se que uma criança recém-nascida, ainda com cordão umbilical, foi encontrada viva em um bueiro de Londrina, no Paraná. E passa bem. Para reduzir o isolamento das mães que chegam a esse extremo e informar que se pode entregar um bebê ao estado, planeja-se uma campanha dita educativa. 
 
Lembro que Leonel Brizola, com seu raciocínio campeiro, comparava e advertia que “quando, num rebanho, a mãe rejeita a cria, isto é sinal de que o conjunto caminha para a extinção”.
Sem termos derrubado todas as barreiras sociais à mãe solteira e sem termos podido promover a educação que contempla a maternidade responsável, percebemos que, apesar de avanços institucionais, vivemos com menos amor e menos valores do que imaginamos.
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