Lily Farias
Tubarão
Se tem alguém que pode falar da enchente sob uma ótica menos dolorosa é Cinara Souza, 38 anos. Ela nasceu no auge de uma das maiores tragédias que já ocorreram na cidade, no dia 26 de março, dois dias depois da enchente. Diante de tanto desespero dos que estavam à sua volta por ver a cidade arrasada, Cinara trouxe um pouco de paz à família, que teve que deixar a sua casa, no bairro Oficinas, onde a água chegou a entrar nas casas, mas não ficaram submersas.
De todas as lembranças que tem da história da enchente, com certeza a que Cinara jamais esquecerá é dos momentos em que, ainda criança, reunia-se em casa com os pais e os irmãos para falar de detalhes da tragédia.
“As pessoas não gostavam de relembrar. Mas eu sempre me emocionava quando meus pais contavam que as pessoas perderam casas, familiares e amigos que amavam e nós, felizmente, não passamos por isso”, conta.
Na época em que nasceu, Cinara tinha um tio que morava com os seus pais e ficou impressionado ao ver Tubarão debaixo da água. Para que o momento ficasse eternizado na vida da família, ele sugeriu que o nome da recém nascida fosse “Enchentina”.
“Quando eu era criança, ficava brava ao ouvir isso. Com o passar do tempo, amadureci e percebi o quanto era engraçado”, lembra.
As reuniões significavam para Cinara muito mais que mera contação de história, era um momento de integração que perdurou até a morte de seus pais, Rosa Maria e Alcides.
“Depois que cresci, nada mudou. No verão, meus pais apagavam as luzes da casa e íamos para rua contar histórias. Depois, formamos nossas famílias e os encontros diminuíram, mas aconteceram até meus pais morrerem”, conta, emocionada.
“Somente o desassoreamento do rio não é suficiente”
Relembrar o desastre de 1974 e discutir ações para minimizar os impactos de um novo desastre natural foi assunto do 5º Seminário da Enchente, que ocorreu nesta sexta-feira no auditório da Amurel. O secretário de proteção e defesa civil da prefeitura de Tubarão, Rafael Marques, apresentou as ações realizadas nestes primeiros meses de governo.
“Uma das primeiras ações foi levantar a situação das comportas do sistema de drenagem que estão às margens do Rio Tubarão. Com apoio do Corpo de Bombeiros conseguimos localizar as comportas porque a Defesa Civil não tinha isso mapeado. Foram identificadas 20 comportas, elas precisam ser trocadas ou recolocadas. Já substituímos quatro”, afirma Rafael.
Outro assunto discutido foi a elaboração do Plano de Contingência de Tubarão. “Este plano é o que norteará as ações com a comunidade em caso de um novo desastre natural, seja de deslizamentos ou de enchentes. Identificamos 27 locais de abrigo que poderão receber as pessoas e temos as informações sobre os responsáveis e os itens disponíveis, em alguns será necessário melhorar as condições”, explica Rafael.
Foi apresentado no mesmo evento um documento que reivindica obras complementares a redragagem da bacia do rio Tubarão. “Estamos cientes de que somente o desassoreamento do rio não é suficiente. É preciso levantar obras complementares necessárias para proteger o rio, como mata ciliar, não habitar em encostas”, analisa.
O evento foi organizado pela prefeitura, por meio da secretaria de proteção e defesa civil, Associação Regional de Engenheiros e Arquitetos (Area-TB), Conselho Municipal de Segurança e câmara de vereadores. O encontro foi instituído pela lei municipal 3.289, de 2009.
Dias de angústia
Enquanto Cinara Souza nascia, nas primeiras horas do dia 26 de março, seus sete irmãos dormiam em um cômodo de uma casa na subida do morro do Becker, no bairro Oficinas.
Sua irmã Jussara Souza, na época com 15 anos, conta que desde o dia 24 de março, até o nascimento de Cinara, foram dias críticos para toda a família.
Na noite da enchente, chovia muito, então, os pais resolveram buscar refúgio em lugares mais altos com medo de a mãe entrar em trabalho de parto. Pegaram o carro e foram pedir abrigo para dona Altair, senhora que ajudou muitos desabrigados.
“Ela não deixava ninguém chegar perto da janela. Um dia, espiei escondida e quando vi que tinha água por todo lado não sabia definir onde estavam as ruas e as casas, me assustei”, lembra Jussara.
A família passou a noite no alto do morro e no outro dia desceu até uma parte porque a bolsa da mãe rompeu. Lá, ficaram mais uns dias, quando viajaram para Santo Amaro da Imperatriz para ficar em casa de parentes. Ao chegarem na cidade, tiveram que ir direto ao posto de saúde para fazer uma série de exames e aplicação de vacinas.
“Ficamos por lá cerca de um mês. Chamamos atenção dos moradores porque éramos os únicos naquele lugar para contar história da tragédia”, relata Jussara.
Do pouco tempo que podia descer, Jussara lembra fortemente do cheiro do lodo e de como ficou a terra assim que água começou a baixar. “Meu pais não deixavam nós ficarmos muito perto e tanto tempo. Mas lembro do odor da terra molhada por baixo e seca por cima, dava uma aparência estranha à paisagem”, descreve.
Cinara Souza nasceu dois dias depois da enchente e um tio sugeriu que ela se chamasse Enchentina. Pelo menos uma história engraçada de todo o drama passado por sua família
Como tudo aconteceu
A enchente ocorreu em 24 de março de 1974. No dia 22, sexta-feira, as chuvas da tarde foram mais intensas nos costões da serra, aumentando sensivelmente o volume dos rios, alagando as áreas baixas. A vila Presidente Médici foi o primeiro bairro a ser atingido. No sábado, dia 23, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros haviam se mobilizado para socorrer a população dos bairros mais alagados. À tarde, a chuva caía forte e ininterrupta. Já havia muitos desabrigados. Várias pessoas deixavam suas casas, deslocavam-se para lugares mais elevados, como o morro da Catedral, por exemplo. Mas alguns moradores permaneceram em suas casas, sem acreditar que a água fosse além do que estavam vendo.
Uma multidão espreitava nas margens do rio, que subia rapidamente. Por volta das 18 horas, a ponte pênsil foi tragada, e a partir daquele momento as águas invadiram o centro comercial. O bairro Oficinas e a margem esquerda foram tomados pela água, em níveis entre 20 centímetros e 1 metro.
No dia 24 de março, os bairros continuavam alagados, mas o nível do rio estava estabilizado. No fim da tarde, a chuva voltou com a mesma intensidade da noite anterior. A noite de domingo foi dramática para os moradores das áreas pouco inundadas na noite de sábado, que sentiram repentinamente a água invadir as suas casas e crescer com forte correnteza. Muitos dormiam e acordaram com os pés na água, alguns subiram para o forro da casa ou telhado. Alguns na tentativa de se salvar, morreram, e outros foram levados juntos com sua casa.
As luzes apagaram-se, os telefones estavam mudos. A cidade ficou sem comunicação. Ao clarear do dia de segunda-feira, a chuva continuava intensa. Um único helicóptero fazia o trabalho de salvamento. Sobrevoava as casas, cujos telhados apareciam, e nos quais se agitavam, desesperadamente, panos de todas as cores.
As residências no morro da Catedral recebiam toda espécie de flagelados em desespero. Não havia alimentos para todos, por isso aconteceu um saque aos Supermercados Angeloni e Cobal.
Registros da tragédia
Existe uma placa na parede frontal da ótica Zumblick, rua Coronel Collaço, registrando o nível atingido pelas águas do Rio Tubarão. Há também uma placa na parede da bomba d’água dos galpões que pertenciam à Souza Cruz, hoje Farol Shopping, rua Lauro Müller, próximo ao portão dos fundos do Shopping, mostrando o nível atingido naquele local. E também no Museu ou Centro Cultural na praça Sete de Setembro, que conta ainda com fotos e registros da enchente de 1974.
