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Se estivesse vivo, Willy Alfredo Zumblick completaria 113 anos neste sábado (26). Nascido em Tubarão em 26 de setembro de 1913, o pintor e escultor construiu uma trajetória de cerca de 75 anos dedicada às artes e transformou episódios históricos, costumes, personagens e paisagens de Santa Catarina em memória visual. Sua produção ultrapassou cinco mil obras.
Mais de um século depois de seu nascimento e 18 anos após sua morte, Zumblick permanece ligado à identidade de Tubarão. Seu nome está no museu que preserva parte de sua produção e, desde 2024, também identifica oficialmente o túnel do Morro do Formigão, na BR-101. Em 2025, a vida e a obra do artista foram declaradas Patrimônio Imaterial, Cultural e Intangível do município.

Dos desenhos de infância aos cartazes de cinema
Willy Alfredo Zumblick nasceu em uma família de descendência alemã. Era filho de Roberto Zumblick e Ida Furghesti Zumblick. O pai ensinou ao menino o ofício de relojoeiro, atividade que Willy manteria paralelamente à produção artística durante boa parte da vida.
O interesse pela arte apareceu cedo. No Colégio São José, em Tubarão, destacou-se pelo desenho e pela pintura. Ainda adolescente, passou a desenhar cartazes para divulgar os filmes exibidos nos cinemas da época.
Embora seja frequentemente apresentado como autodidata, Zumblick também teve contato com artistas que contribuíram para seu desenvolvimento técnico. Um dos mais importantes foi Frederico Guilherme Lobe, ligado à Escola Alemã de Belas Artes de Porto Alegre.
Lobe havia sido contratado para executar pinturas religiosas na antiga Igreja Nossa Senhora da Piedade, em Tubarão. Durante o período em que permaneceu na cidade, Zumblick trabalhou como seu auxiliar e recebeu orientações sobre pintura.
A experiência teria consequências importantes. A própria Prefeitura de Tubarão registra uma curiosidade: Lobe aconselhou o jovem a não produzir quadros históricos sem encomenda. Zumblick seguiu justamente o caminho contrário e faria da história um dos principais temas de sua carreira.
Primeira exposição abriu caminho para uma longa carreira
O ano de 1939 marcou uma virada. Zumblick realizou sua primeira exposição individual em Tubarão. Depois, apresentou trabalhos em Florianópolis e ampliou gradualmente sua presença no circuito artístico.
Em 1944, expôs em Porto Alegre. Dois anos depois, chegou ao Rio de Janeiro. Em 1946, alugou um salão no edifício da Associação Brasileira de Imprensa e apresentou cerca de 60 telas.
As obras atravessaram as fronteiras catarinenses e brasileiras. Registros da Assembleia Legislativa apontam a presença de trabalhos do artista em países como Estados Unidos, Japão e Espanha.
Apesar da projeção, Zumblick manteve Tubarão como centro de sua vida.
Em 1937, casou-se com Célia Sá. O casal teve cinco filhos. A vida familiar conviveu com uma rotina que misturava dois ofícios aparentemente distantes: de um lado, as pequenas peças e ferramentas da relojoaria; do outro, telas, tintas, pincéis, desenhos e esculturas.
Zumblick transformou a história catarinense em pintura
A dimensão documental é uma das características mais marcantes da produção de Willy Zumblick. Em vez de concentrar seu trabalho apenas em retratos ou paisagens, ele voltou os pincéis para episódios históricos e manifestações populares de Santa Catarina.
A Guerra do Contestado ganhou espaço em suas telas. A trajetória de Anita e Giuseppe Garibaldi também foi transformada em imagens. O artista registrou ainda manifestações como Boi de Mamão, Terno de Reis, Bandeira do Divino e outras tradições associadas à formação cultural catarinense.
Tubarão também aparece de maneira recorrente.
Igrejas, ruas, casarios, paisagens, moradores e o Rio Tubarão foram transformados em registros de uma cidade que mudou profundamente ao longo do século 20. Assim, parte da produção de Zumblick ganhou também valor como documento visual das transformações urbanas e sociais do município.
Sua atuação não ficou restrita às telas. Zumblick produziu esculturas, desenhos, caricaturas, relevos e monumentos públicos.
Entre esses trabalhos está a Torre da Gratidão, criada em homenagem às pessoas que ajudaram os moradores de Tubarão durante a enchente de 1974. Também realizou o Monumento à Mãe e o Monumento ao Caminhoneiro, além de um obelisco alusivo ao índio Toba-Nharô.
Mais de cinco mil obras ao longo da trajetória
Dimensionar a produção de Zumblick é um desafio. Registros oficiais apontam que ela ultrapassou cinco mil obras, resultado de aproximadamente 75 anos de atividade artística. O Senado registra ainda participação em pelo menos 600 exposições ao longo da carreira.
O artista recebeu diferentes homenagens e condecorações. Entre elas estão a Medalha do Mérito Anita Garibaldi, além de reconhecimentos concedidos por instituições culturais, municípios e organizações brasileiras.
Mas talvez uma das homenagens mais importantes tenha ocorrido ainda em vida e justamente em sua cidade natal.
Museu mantém legado no coração de Tubarão
Em setembro de 2000, quando Zumblick se aproximava dos 87 anos, foi inaugurado o Museu Willy Zumblick, integrado ao Centro Municipal de Cultura de Tubarão.
O espaço preserva uma parte da extensa produção do artista, além de esculturas, homenagens, documentos e instrumentos relacionados à sua trajetória.
O museu funciona como um ponto de encontro entre diferentes épocas de Tubarão. Nas obras, é possível observar personagens, manifestações religiosas, tradições populares e paisagens que ajudam a contar a história da cidade e de Santa Catarina.
Zumblick morreu em abril de 2008, aos 94 anos, em Tubarão. Foi sepultado no Cemitério Horto da Saudade.
Nome de Zumblick atravessa Tubarão pela BR-101
Décadas depois de algumas de suas principais obras, novas homenagens passaram a incorporar definitivamente o nome do artista à geografia da cidade.
Em julho de 2024, a Lei Federal nº 14.920 denominou oficialmente “Willy Alfredo Zumblick” o túnel do Morro do Formigão, localizado entre os quilômetros 337,8 e 338,7 da BR-101, em Tubarão.
A homenagem estabelece uma ligação curiosa com outra obra do próprio artista. Próximo ao túnel está o Monumento ao Caminhoneiro, escultura de aproximadamente 4,3 metros produzida por Zumblick.
Em 2025, outro reconhecimento veio do próprio município. A Câmara de Vereadores aprovou o projeto que declarou a vida e a obra de Willy Zumblick como Patrimônio Imaterial, Cultural e Intangível de Tubarão. A proposta foi aprovada por 11 votos favoráveis e nenhum contrário.
Aos 113 anos, uma história que continua nas telas
Neste 26 de setembro, lembrar os 113 anos de Willy Zumblick significa também percorrer parte da história de Tubarão.
O menino que desenhava cartazes de cinema tornou-se pintor, escultor, caricaturista e autor de monumentos. A relojoaria dividiu espaço com os pincéis. A cidade onde nasceu permaneceu como endereço e inspiração mesmo quando suas obras passaram a circular por outros estados e países.
Seu legado está hoje espalhado por coleções, espaços públicos e instituições culturais. Mas é em Tubarão que essa história permanece mais visível.
Está nas telas do museu, nos monumentos, nas imagens de uma cidade que já não existe da mesma forma e até no nome do túnel atravessado diariamente por milhares de motoristas.
Mais de um século depois daquele 26 de setembro de 1913, as obras de Willy Zumblick continuam cumprindo uma das funções que marcaram sua trajetória: registrar em imagens a história, os costumes e as pessoas de Santa Catarina.