Início Opinião Zé Diabo – o artista dos santos

Zé Diabo – o artista dos santos

Em toda Santa Catarina, inclusive na própria cidade em que nasceu e continua morando, não são poucos os que hesitam em responder quem é e onde reside o pedreiro José Fernandes, de mais de 80 anos de idade, pai de Fernando, Denise e Joel, filhos que teve com dona Eunice Debiasi com quem se casou em 10 de julho de 1958. 

 
Porém, se a mesma pergunta for endereçada quanto ao artista e escultor Zé Diabo, o homem do “paredão de Orleans”, todos, sem titubear, em poucos segundos, dirão como encontrá-lo e, mais ainda, como chegar às suas gigantescas obras esculpidas em pedra nativa do lugar. Trata-se, pois, da mesma pessoa.
 
O curioso cognome surgiu em 1957, quando o pedreiro José Fernandes, nascido a 19 de março de 1930, fervoroso católico e autodidata em artes, foi convidado a estampar na fachada de uma igreja da paróquia de Grão-Pará, localidade de Invernada, uma passagem de conhecido capítulo bíblico do livro do Gênesis. Surpreendendo a todos, principalmente ao pároco e fiéis mais conservadores do lugar, o criativo artista, em expressivos traços, reproduziu um fictício embate entre Miguel e Satanás, representando, em destaque, a luta entre o bem e o mal. Logo, por conta do inusitado gesto artístico, José Fernandes ganhou a alcunha de Zé do Diabo, mais tarde simplificado para Zé Diabo, epíteto que hoje o identifica mais que o próprio nome.      
 
Hoje aposentado, ocupado apenas em dar palestras sobre os trabalhos que executou no paredão e divulgar seu livro recentemente editado, que trata do mesmo assunto, Zé Diabo diz que desejava apenas concluir suas obras de arte sacra que, aos poucos, foi esculpindo no vistoso paredão de pedra maciça jazente na orla da estrada de acesso ao município de Orleans (foto), no sul de Santa Catarina, e que não foram finalizados. Agora, porém, é tarde. A avançada idade já não lhe permite a realização deste sonho. 
 
A dita encosta fica a 500 metros da Igreja Matriz, em local por onde passava a linha férrea, destruída e desativada durante a enchente de 1974, quando parte da região e principalmente a cidade de Tubarão foram quase totalmente destroçadas. 
 
Todo o trabalho de Zé Diabo, iniciado em 6 de junho de 1980, teria em seu projeto original a expectativa de ocupar 1,6 mil metros quadrados do bloco rochoso, em cuja face, além de outras cenas das histórias brasileira e universal, reproduziria 300 imagens sacras, distribuídas em 28 painéis. Com mais de 15 anos de trabalhos realizados e 12 horas de serviço ao dia, concluíram-se apenas os painéis que retratam “A criação do Homem”, “O sacrifício de Abraão”, “A passagem do Mar Vermelho”, “O templo do Rei Salomão” e “Os Profetas”. Estão esculpidos 170 metros quadrados.
 
Ao narrar seu método de criação, o escultor diz que, até esculpir em definitivo sua obra na pedra bruta da encosta, fez esboços em cartolina, seguido de minuciosa reprodução em miniatura, em argila e, a partir desse modelo, rabiscava com carvão vegetal, em escala ampliada, a linha de corte no próprio paredão. Do que foi feito, o artista já reproduziu bem  mais que 50 mil postais fotográficos, a maioria deles encaminhada ao exterior.
 
Zé Diabo explica sua vocação para a pintura dizendo que sempre gostou de artes e teve facilidade de desenhar, conquanto não tenha ultrapassado o 1º grau nos bancos escolares. Até porque o próprio trabalho de cortador de pedra e depois o ofício de simples pedreiro não lhe ensejaram frequentar colégio mais avançado. A profissão de cortador de pedras herdou-a de seu pai, aprendendo-a quando ainda criança.
 
Durante as folgas do fatigante trabalho braçal, José Fernandes costumava ser solicitado a pintar painéis, vitrais e interiores das igrejas de paróquias da região sul de Santa Catarina. Dessas, além da já citada de Grão-Pará, enumera com destaque as de Nova Veneza, Santa Clara, Barracão e Sombrio, a última tida como a que mais admira.
 
Tudo isso, porém, não faz Zé Diabo esquecer as dificuldades que encontrou para o prosseguimento de seu trabalho no paredão de Orleans. Enfaticamente, à imprensa, referiu-se à carência de apoio financeiro e logístico que sofreu. O desabafo aconteceu quando um grupo de estudantes foi conhecer in loco sua principal obra: 
 
“Eu queria dizer para essas pessoas que me visitam, aos estudantes, que esta desilusão e amargura que os artistas sofrem, como eu sofri aqui: desprezo e descaso da sociedade e pressão de natureza política, nada disso seria interessante ou importante. O que importa mesmo para mim é saber que eu estou transmitindo para vocês, estudantes, minha mensagem e que me sinto gratificado por saber que alguma coisa de útil eu estou doando para esta mocidade”.
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