Víctor Daltoé dos Anjos
Bacharel em Geografia pela UFSC
victordaltoe@gmail.com
Num poema de Manuel Bandeira, o paciente sente febre e algumas dores no peito. Vai ao médico, que lhe ausculta os sentidos e lhe dá más notícias sobre sua saúde. O paciente questiona se não é possível nem utilizar o ‘pneumotórax’, um tratamento da época. O doutor apenas responde a famosa frase resignada: ‘Não. A única coisa a fazer é dançar um tango argentino’. Ao pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI), nesse início de maio, o atual governo da Argentina mostra corajoso que não quer dançar tango nenhum.
Maurício Macri entrou no governo do país em 2015. Prometeu jogar a corda para que a Argentina não afundasse completamente na areia movediça do populismo de esquerda dos Kirchner. Prometia reformas e até realizou algumas com coragem. Mas essa tem se mostrado uma milonga difícil de ser dançada.
Já dizia o economista Simon Kuznets que “Existem quatro tipos de países no mundo: os desenvolvidos, os subdesenvolvidos, o Japão e a Argentina.”. Os rodopios pelos quais passa a economia do país dizem em parte respeito às especificidades de sua economia. O seu padrão-dólar argentino, próximo do padrão dólar-ouro que valia mundialmente até os anos 1970, só vai bem quando a economia mundial vai também. Mas a questão não passa apenas por aí. A crise econômica atual, com alta do dólar, disparada da inflação e rombos nas contas públicas, faz parte da ressaca dos governos do casal Kirchner (2003-2015).
Macri conseguiu efetuar sua reforma da Previdência, porém seu gradualismo atrasou os outros ajustes. Agora, a esquerda ataca-o por conta das reformas que fez, e a direita ataca-o por estar lento demais no seu ‘choque de gestão’. O receio de uma queda grande de popularidade levou o presidente argentino a um remédio que pode curar a doença, porém pode lhe fazer perder qualquer chance de ganhar as eleições de 2019 ou eleger um sucessor. O remédio é a ajuda do FMI.
O ato pode realmente trazer um mínimo de estabilização para a economia portenha, mas o custo político pode ser alto. Não são poucos os argentinos traumatizados com os sucessivos choques pelos quais passaram desde os anos 1980. No meio das crises sempre estava presente o FMI, por mais que a ação dele não fosse exatamente a causa de crise nenhuma, e sim a consequência das irresponsabilidades de governos sucessivos. Macri sabe muito bem disso. Porém, mesmo que o pedido de socorro lhe custe popularidade, não quer ser dado como morto antes da hora. A Argentina escolheu tentar o pneumotórax.

