Quando fui convidada para ocupar uma cadeira na Academia Tubaronense de Letras – ACATUL, escolhi como Patrona Carolina Maria de Jesus. Não foi uma escolha casual. Carolina chegou a ser considerada, por muitos, uma escritora improvável — e talvez tenha sido justamente isso que me aproximou dela.
Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914, em Sacramento, Minas Gerais. Mulher negra, pobre e com poucos anos de estudo formal, viveu grande parte da vida na favela do Canindé, em São Paulo. Catadora de papel, registrava em cadernos encontrados no lixo o cotidiano duro da fome, da desigualdade e da sobrevivência. Em 1960, seu diário foi publicado com o título Quarto de Despejo, obra que se tornaria um sucesso internacional e seria traduzida para diversos idiomas, revelando ao mundo a força de sua escrita e a dignidade de sua voz.
Carolina foi, para mim, uma inspiração. Lutou contra todas as adversidades e lançou seu maior sucesso três anos antes de eu nascer.
Eu não passei por necessidades extremas, não enfrentei a dor da fome nem vivi em um barraco. Ainda assim, quando pesquisava sua biografia para escrever meu discurso de posse, uma frase me atravessou: “uma escritora improvável”. Era exatamente assim que eu ainda me sentia em minha curta trajetória na literatura.
Depois de me tornar membro da Academia, senti crescer também minha responsabilidade e meu compromisso com os estudos e com a escrita.
Esta semana, no dia 14 de março, várias reportagens lembraram que Carolina completaria 112 anos. Ela faleceu em 1977, mas seu livro e sua história continuam reverberando no mundo.
Falando em mundo, talvez seja por isso que escolhi este tema. Esta escritora improvável que agora escreve da Alemanha participou hoje da 15ª edição da Feira Literária Infantil e Juvenil da cidade de Munique. Além da feira, tive a alegria de ser apresentada a três projetos literários para participar contando histórias, mediando encontros e falando sobre processos criativos.
Às vezes penso que estou vivendo um sonho. Imagino que Carolina, quando foi descoberta, também tenha se surpreendido e vivido intensamente seu momento de glória — embora nunca tenha perdido sua essência mineira.
Em breve retornarei ao Brasil com uma agenda repleta que conta inclusive com o lançamento de dois livros para 2026 e tantos outros projetos literários com os colégios que adotaram meus livros. Volto mais confiante e mais convicta do caminho que quero trilhar ao lado dos meus leitores.
Talvez continuemos sendo, cada uma à sua maneira, escritoras improváveis.
E talvez seja exatamente isso que torne a literatura tão extraordinária.
No vemos nas próximas linhas!

