Numa partida de futebol, a falta é considerada infração. Para conter a violência, a regra, então, prevê que o juiz fique de olho e puna com rigor as atitudes pouco desportivas dos jogadores. Dependendo da gravidade da falta, o infrator pode ser advertido e até mesmo expulso de campo. Como medida para evitar os olhos julgadores do juiz, os atletas criaram, ao longo do tempo, desonestas artimanhas. Colocam a mão na bola de forma discreta para levar vantagem na jogada, chutam a canela do adversário, acotovelam o rival numa disputa aérea… E os malandros sempre procuram cometer o deslize de conduta na escuridão de uma piscadela de olhos do juiz.
E sabem o que é comum acontecer quando o árbitro assinala uma grave e legítima infração? O infrator ergue os braços como que alertando: “eu não fiz nada.” A interpretação cênica da indignação é convincente a ponto de contagiar até mesmo os seus companheiros. E, em segundos, todo o time cerca e peita o juiz, como se fosse um absurdo a aplicação do cartão vermelho a um jogador que acertou covardemente um pontapé no adversário. E os torcedores? Esses também ficam enfurecidos com o tradicional homem de preto. Na arquibancada, um pai acompanhado do seu filho de 7 anos, segue o mesmo exemplo dos demais torcedores. Mas o menino fica confuso, pois o seu olhar sincero viu que a expulsão fora justa. Ele tenta de todos os meios entender por que os jogadores, a torcida, e até mesmo o seu pai estão a gritar que o juiz é ladrão. Mas a resposta certa não vem. Então ele assimila o errado como certo.
E a partir desse dia, o menino passa a acreditar que está sendo injustiçado quando o professor cobra a tarefa que ele não fez. Pois segundo a ética assimilada por ele no estádio de futebol, “o correto não é o que é certo de fato, mas sim o que é vantajoso para si”. Muitos anos se passaram, o menino do estádio de futebol cresceu. Agora é um homem habilitado a dirigir o seu carro. Ele procura e não encontra vagas para estacionar, mas vê um vazio convidativo num local reservado exclusivamente para os deficientes físicos. Então, o homem se lembra da ética que aprendera quando menino: “O correto não é o que é certo de fato, mas sim o que é vantajoso para si”.
Evitando ser notado, ele comete a falta (estaciona) discretamente e sai de mansinho. Mas quando retorna, o guarda municipal está assinalando a infração. Ele entende aquilo como o cúmulo do absurdo. Esbraveja aos quatro ventos, dizendo que não cometera falta alguma, que o guarda é aproveitador e está extrapolando a autoridade ao lhe aplicar a punição injustamente. E promete vingança. Imediatamente saca o celular do bolso e posta no facebook que sua chegada na vaga foi limpa e honesta, instigando a torcida de seguidores a xingar o ‘árbitro’. E rapidamente um grito virtual de “justiça” se espalha pela rede. O grito dos hipócritas! Porque para esses não importa se a punição da falta foi legítima. O que vale é levar vantagem na jogada.