sexta-feira, 10 julho , 2026

A fragilidade de concreto e a sina do sul catarinense

FOTO PML Divulgação Notisul

O sul de Santa Catarina parece condenado a uma eterna provação logística. Quando não é o fantasma dos deslizamentos no Morro dos Cavalos que interrompe o fluxo do estado, surge agora o fechamento completo da Ponte Anita Garibaldi, em Laguna. O bloqueio ocorre ironicamente às vésperas de a estrutura completar 11 anos de sua inauguração, ocorrida em 15 de julho de 2015. Em vez de celebração pela efeméride daquela que foi vendida como uma das maiores obras de engenharia do país, o que se vê são pistas vazias, desvios caóticos e uma investigação urgente conduzida pela concessionária.

Os boatos de bastidores e as primeiras informações técnicas assustam: fala-se desde o rompimento de um dos cabos de sustentação (estais) até outros danos estruturais severos na base ou nos pilares. Como uma obra monumental que custou cerca de 800 milhões de reais apresenta uma falha catastrófica desse nível com apenas uma década de uso? A resposta a essa pergunta não é apenas técnica; ela expõe as entranhas da gestão de infraestrutura no Brasil.

O projeto original da ponte, orçado inicialmente em 170 milhões de reais, foi elaborado ainda durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). No entanto, a execução e a entrega arrastaram-se pelos governos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT). Essa colcha de retalhos temporal e política, tão comum nas obras públicas brasileiras, frequentemente cobra o seu preço mais tarde. Se houve erro de projeto, falha na execução ou negligência na manutenção preventiva após a concessão, a perícia dirá. O fato incontestável é que o cidadão pagou caro por um produto que já apresenta prazo de validade vencido.

O fechamento da ponte vai muito além do transtorno local; ele fere de morte o sagrado e constitucional direito de ir e vir dos catarinenses e de todos os brasileiros que utilizam a BR-101 como principal artéria do Mercosul. O isolamento do sul do estado impõe prejuízos econômicos que rapidamente escalam para a casa dos milhões de reais, encarecendo o transporte de cargas e sufocando o comércio. Mais grave do que as perdas financeiras é o custo humano: vidas são colocadas em risco pela saturação das rodovias secundárias e pela demora no atendimento de emergências médicas travadas no trânsito.

O que se testemunha em Santa Catarina é um teste severo e cruel à paciência de uma população que cumpre seus deveres e paga impostos altíssimos. A infraestrutura do estado não pode continuar operando no limite do colapso, dependendo da sorte ou de remendos emergenciais. Investigar a fundo a responsabilidade da concessionária e das empreiteiras sobre as falhas da Ponte Anita Garibaldi não é apenas uma obrigação técnica, é um ato de respeito a quem foi privado do direito elementar de seguir adiante.

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