Lily Farias
Tubarão
A dor da perda de identidade e do amor próprio fez com que três homens, com histórias distintas, dessem um novo rumo às suas vidas. O que eles têm em comum? Seguiam por um caminho que parecia não ter mais volta. Viciados em crack, hoje eles lutam para sobreviver e deixar para trás o passado sombrio de idas e vindas da prisão, brigas com familiares, assaltos e tráfico de drogas.
“Eu meti a arma na cara dele e levei tudo o que tinha”. Lembrança que Eduardo tenta tirar da memória e promete jamais repetir. Hoje com 23 anos, ele usou crack pela primeira vez aos 20.
Não demorou muito para entrar no mundo do crime. Para ter dinheiro e comprar a droga, Eduardo passou a praticar assaltos à mão armada e a traficar. Durante este período foi preso quatro vezes, saiu da prisão em março deste ano. Ele continuou na criminalidade e a usar drogas. Até ter um começo de overdose e ver sua vida ir por água abaixo.
“Vivia na boca de fumo. Trabalhei como olheiro e fumava crack feito um maluco. Perdi tudo o que tinha de mais valor: meus amigos e minha família. Quando percebi que cheguei ao fundo do poço, decidi parar com tudo. Hoje, com o apoio da família, estou limpo há quase um mês. Não quero voltar atrás”, relata.
* Os nomes das matérias são fictícios para preservar os entrevistados.
Sem credibilidade, sem nada
Aos 34 anos, André só pensa no momento em que vai se sentir em paz. Sensação que diz não ter há 12 anos, desde que usou crack pela primeira vez. Após uma decepção amorosa, ele experimentou a droga e trocou a paixão pela outra. Só não esperava enfrentar momentos difíceis para se livrar do vício. O que pensou ser apenas um momento de bem estar, rendeu-lhe oito internações e seis meses na prisão, após roubar o carro de um amigo.
“Perdi muita coisa: amigos, dinheiro, emprego, casamento. O que mais me doeu foi perder a confiança da minha família. Sem credibilidade com eles eu não sou ninguém. Já tentei parar, mas tive recaídas. Fiquei um ano limpo, mas voltei por bobeira. É difícil sair. Hoje, trato de outra doença que me mata aos poucos, a esquizofrenia. Só tenho vontade de me libertar”, revela André.
“Vendi tudo que tinha em casa”
Com um casal de filhos menores de 10 anos, Márcio conta com o apoio da família para se recuperar do que ele considera a sua maior doença: o vício no crack. Aos 30 anos, ele afirma querer apagar da memória os quatro últimos anos de sua vida. Sem usar drogas desde maio deste ano, Márcio lembra que tudo começou por curiosidade. Fumava maconha com os amigos, saía para beber.
Até que conheceu o crack. Foi então que viu sua vida tornar-se um inferno, como ele mesmo descreve. Todo o dinheiro que ganhava era para usar a droga. Quando perdeu o emprego, passou a vender as mobílias de casa para sustentar o vício.
“Tinha uma situação financeira muito boa. Vendi meus dois carros e tudo que tinha em casa. Perdi minha mulher e passei a manipular as pessoas por dinheiro, perdi a confiança da família. Mas nunca me envolvi com o crime”, detalha Márcio.
Da criminalidade à luta para ajudar os dependentes
Para muita gente, a luta contra o crack é uma guerra perdida. Mas para quem está disposto a ajudar e tratar os dependentes, a situação é bem diferente. É o caso do coordenador terapêutico Alberto Medeiros, 54 anos. Hoje, ele atua em uma entidade de tratamento de pessoas com problemas com drogas, em Tubarão. Sua missão é ajudar estas pessoas a conseguir reconstruir suas vidas.
Alberto diz que seus paciente são tratados como doentes e todos são conscientes dos malefícios que a droga causa. “Questões psicológicas ainda são as maiores motivadoras para as pessoas entrarem neste submundo, que geralmente não tem saída. Eles estão doentes e precisam de ajuda”, pontua Alberto.
Sem esconder o seu passado, ele usou drogas ilícitas durante 29 anos. Envolveu-se com a criminalidade e foi preso diversas vezes. Hoje, ajuda André, Márcio e Eduardo a também saírem deste pesadelo.
“Eles têm que aprender com os próprios erros. Foi assim comigo. Estou limpo há anos. Se eu consegui, outros também podem”, incentiva Alberto.
Atenção redobrada aos menores
Hoje, estima-se que existam pelo menos três milhões de dependentes químicos no Brasil. Deste total, acredita-se que um milhão de pessoas são usuários de crack. Esta realidade levou as autoridades a considerar a situação como uma pandemia. Segundo o deputado estadual e presidente da Frente Parlamentar de Combate e Prevenção às Drogas no estado, Ismael dos Santos (DEM), há, em Santa Catarina, mais de 125 mil dependentes de substâncias entorpecentes ilícitas.
“O Brasil deixou de ser a rota do tráfico para ser o segundo país com o maior número de consumidores de drogas”, aponta Ismael. Para ele, uma das mais preocupantes estimativas é a possibilidade de o estado ter mais de 180 mil crianças e adolescentes diretamente envolvidas com o uso de entorpecentes. “São estudantes do ensino fundamental e médio, que fazem uso esporádico de drogas”, revela.
700 mil – pessoas é a quantidade de dependentes de álcool em Santa Catarina. Os ex-usuários de crack, André, Márcio e Eduardo são enfáticos ao afirmarem que o álcool é a ponte para todo o processo de recaída na droga.

