sexta-feira, 9 outubro , 2026

A traição como direito de Estado

Todo povo tem seu orgulho. O Brasil também tem o seu: ser o país das delações premiadas. Aguardadas com certo fastio, as divulgações das verdades ou versões contadas e depuradas em grampos e gravações – muitas delas ilegais – ganham divulgação imediata e compartilhada, em todos os meios, por todos. Nessa esteira de orgulho e satisfação nacionais, os delatores posam na TV como pops stars da traição, canonizados pelas nossas instituições que deveriam ser mais nobres, obtendo delas o perdão libertador.

O êxtase em flagrar o mal feito quase sempre é maior que a revolta pelo dano causado à nação, ao futuro comprometido. Isso se revela nas benesses concedidas ao delator, com salvas de herói caído de um povo. Primeiro foi o Joaquim – português originário – Silvério dos Reis, até hoje um nome bem brasileiro, sepultando os sonhos de um novo país, nascido do ouro e da honra que não se tinha, e apenas um foi levado à forca. Visando o benefício próprio, Joaquim entregou o seu amigo nos braços da morte, e nem foi preciso um último beijo na noite escura da traição. Se não fosse a coragem solitária de Tiradentes, a Inconfidência Mineira seria a mais longa e duradoura página da vergonha nacional.

Quase cem anos antes, Borba Gato, desbravador do mato, herói nacional, também fez a dele, revelando aos portugueses as minas de ouro do Sabarabussu, se livrando do desterro e da pena de crime de lesa majestade.

Sua delação própria, confissão das conquistas da heroica bandeira primeira, possibilitou o povoamento das Minas Gerais, que culminou com uma guerra pátria, a dos Emboabas, e deu ao Estado que nascia e ao Brasil o sentido de nação. Indo ao encontro da alma delatora do povo que em Minas ainda não vivia, se deu o triste episódio que entrou para a história como o Capão da Traição, quando os novos mineiros, os vencedores, abateram os paulistas rendidos e vencidos.

Três séculos depois, as delações ideológicas levaram à prisão e à execração pública de Gregório Bezerra e Francisco Julião, por tornarem realidade um pioneiro projeto social e ideológico no nordeste deserto de ideias, de programas, de esperança, de história.

Tudo isso, por terem feito a diferença, quando todos queriam ali, na extrema pobreza, sempre o igual.

Ideologicamente acovardada, a nação de cócoras coroa o que sempre foi objeto de desprezo e indiferença aos povos: o delator. 

O estado policialesco, desagregador, do medo; os privilégios àquele que vigia e denuncia, que grava a reunião em que ele é um dos atores, faz a insegurança nas convivências, faz um país menor, alicerçado no que pratica a traição duas vezes. Esse é também a base da nossa justiça, que avança na esteira da delação, encurtando assim o caminho do que deveria ser investigado e fartamente provado e comprovado, seguindo os trâmites legais do Estado de Direito, aquele que veio para substituir o Estado justiceiro.

E a justiça nacional, em todas as suas instâncias, com aplausos de toda nação, pratica sua barbárie moral, institucional, ideológica; tudo isso, sem precisar de um truculento e obsoleto AI-5. Na premiada e premeditada delação, temos a alma da nação revelada. Vale lembrar que a etimologia da palavra companheiro é “aquele que come comigo”.

 

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