sábado, 26 setembro , 2026

As eleições, as sedutoras falas do senso comum

Nossas relações sociais nos ofertam um senso comum, que é o “conjunto de opiniões, ideias e concepções que, prevalecendo em um determinado contexto social, se impõem como naturais e necessárias” (Houaiss).

Todo pensamento é constituído pelo que lhe advém do senso comum. São ideias que nos são transmitidas por relações de poder, naturalizadas pela sua generalização e valoradas por discursos que as portam e as fazem circular.

Contudo, pelos tempos e regiões, opiniões naturais e necessárias divergem. Isso nos ensina que valores são relativos. Bem, não obstante relativos, há valores que vêm sendo universalizados, ou feitos absolutos.

São os conceitos iluministas inscritos pelos franceses na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 1789, inspiração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU em 1948.

Esse elenco de valores responsabiliza a cada um e a todos os humanos pela condição da humanidade e estabelece o patamar mínimo do civilizado. Eis um monumento civilizatório infelizmente não suficientemente assentado.

A França e os EUA são os artífices e fiadores morais da proposta. Ambos os países adotaram a república como forma de governo por entenderem-na como a mais concernente com o regime democrático.

Nós adotamos os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, nos pretendemos democráticos e nos organizamos como república. Nunca alcançamos, todavia, o bastante, os valores democráticos e republicanos.

Os Direitos Humanos foram capturados por grupos religiosos militantes. No lugar de investirmos na sua valoração, convertemo-lo em bandeira de apoio acrítico “às vítimas do sistema” e em libelo contra membros das forças policiais.

Esse marco da História do Ocidente, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, é discursado, no Brasil, como capítulo constitutivo de ódios: “Bandido bom é bandido morto”, “Todo policial é assassino de pobre”.

Nossa democracia jamais sepultou a República Velha. Somos um continuado acordo de elites. À direita e à esquerda, os governantes se compuseram, não ousaram entrar em “bola dividida”. Os banqueiros que o digam.

Quanto à república, não toleramos o institucional. Aceitamos a instituição na medida, apenas, em que suas decisões coincidem com nossa interesseira posição pessoal. O STF é o exemplo mais acabado dessa nossa concepção.

O Supremo é abominado pela direita quando decide por avanços sociais ou quando concede Habeas Corpus a um político de esquerda. A direita o louva quando um larápio de esquerda recebe condenação e cadeia.

O mesmo Tribunal é execrado pela esquerda quando mantém em cárcere um prócer de suas fileiras. Contudo, a mesma esquerda mantêm-se em loquaz silêncio se o réu for um oponente pertencente às linhas da direita.

Valesse-nos o institucional, pediríamos por conceitos, não pleitearíamos fundados em culto à personalidade. Se por Justiça coubesse liberdade a Lula, caberia a Cunha, a Maluf, aos demais em mesma situação jurídica, pois não?

Ao nível elevado que as formas persuasivas e consensuais solicitadas pelo moderno “contrato social”, nós respondemos com os nossos modos coxinha versus mortadela de ser: insultos ao adversário, já feito inimigo.

É eleição. Qual dos discursos circulantes te alcançou? Todo discurso que circula é originário de um grupo poderoso suficiente para pô-lo em circulação. De que grupo de poder emana o discurso que te afeta e te compromete?

Serias um coxinha convencido de que o Bolsonaro vai resolver o Brasil no grito ou na bala? Serias um mortadela convencido de que o Lula é perseguido pelo Tribunal cujos membros ele mesmo nomeou? Terias asco de tudo isso?

Esses três discursos são os mais propagados. Estratégias de produção e tecnologias de disseminação de discurso conseguiram alcançar a maior parte da população, abduzindo-as aos interesses estabelecidos. Supera isso.

Olha, afere a história e as falas do teu candidato: que sentido fazem-lhe os Direitos Humanos; o quanto ele respeita à vida em comum pacífica; que valor ele confere às instituições. Na aferência, não usa o senso comum.

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