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Um ano após a transição entre Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo na presidência do Banco Central do Brasil, no dia 1 de janeiro de 2025, marca um momento histórico: a primeira troca de comando sob a égide da Lei de Autonomia do BC (Lei Complementar 179/2021). Este desenho institucional foi criado justamente para blindar a política monetária de ciclos políticos, mas não impediu que o tema dos juros se tornasse o principal campo de batalha entre o governo e a autoridade monetária.
O dilema dos duros: entre o combate à inflação e a crise fiscal
A gestão da taxa Selic no Brasil, independentemente de quem ocupe a presidência do BC, enfrenta um paradoxo estrutural: juros altos são necessários para conter a inflação, mas seu custo agrava as contas públicas, criando um ciclo de dependência.
1. Críticas a Roberto Campos Neto (2021-2024)
Durante a gestão de Campos Neto, as críticas intensificaram-se a partir de 2023, com o retorno do presidente Lula ao poder. Os principais pontos de ataque foram:
“Sabotagem” econômica: O governo e o Partido dos Trabalhadores (PT) frequentemente classificaram a manutenção da Selic em 13,75% como uma medida política para frear o crescimento do país.
Falta de sensibilidade social: Críticos argumentavam que o BC ignorava a queda nos preços dos alimentos e o desemprego, focando exclusivamente em metas de inflação “padrão europeu”.
Viés político: Episódios como a ida de Campos Neto a eventos sociais com figuras da oposição alimentaram a narrativa de que a autonomia era, na verdade, um alinhamento com a gestão anterior.
2. A “herança” de Galípolo e o cenário em 2025
Ao assumir em janeiro de 2025, Gabriel Galípolo encontrou um cenário desafiador. Embora indicado por Lula, o “mercado” e a própria realidade econômica impuseram um tom pragmático:
Juros em elevação: Contrariando expectativas iniciais de queda, a Selic atingiu 15% ao ano em meados de 2025.
Mudança de discurso: O tom agressivo do governo contra o BC arrefeceu momentaneamente para preservar a credibilidade de Galípolo, mas as pressões do setor produtivo e das centrais sindicais continuam, já que o Brasil mantém um dos maiores juros reais do mundo.
O impacto das contas públicas na taxa de juros
O Banco Central não define os juros no vácuo; ele reage à saúde das contas do governo. Existe uma relação direta entre o gasto público e a taxa Selic:
A relação causa-efeito
Descontrole de gastos: Quando o governo gasta mais do que arrecada (déficit fiscal), ele precisa emitir dívida para se financiar.
Risco e prêmio: Investidores exigem juros mais altos para emprestar dinheiro a um governo que consideram “indisciplinado”.
Transmissão monetária: Gastos públicos elevados estimulam a demanda. Se a oferta de produtos não acompanha, a inflação sobe. O BC, então, eleva a Selic para “esfriar” a economia.
O custo da dívida
O impacto fiscal é matemático: estima-se que cada 1% de aumento na Selic acrescente mais de R$ 50 bilhões ao custo da dívida pública brasileira. Em 2025, o Brasil chegou à marca histórica de gastar quase R$ 1 trilhão por ano apenas com o pagamento de juros da dívida.
Comparativo: gestão Campos Neto x gestão Galípolo
| Característica | Roberto Campos Neto (Indicação Bolsonaro) | Gabriel Galípolo (Indicação Lula) |
| Perfil | Liberal, egresso do mercado financeiro (Santander). | Heterodoxo/Pragmático, ex-Fazenda e Banco Fator. |
| Foco | Rigor no cumprimento da meta de inflação (3%). | Busca de equilíbrio entre meta e crescimento. |
| Principal Desafio | Lidar com a inflação pós-pandemia e pressões políticas. | Manter credibilidade técnica sob um governo de expansão de gastos. |
| Relação com o Executivo | Conflituosa e marcada por críticas públicas. | Alinhada politicamente, mas tecnicamente pressionada. |
A autonomia do Banco Central provou ser um teste de resiliência institucional. Enquanto Campos Neto, muito criticado por taxas de juros a 13,75%, foi o “escudo” contra a inflação sob fogo cruzado, Galípolo assume o papel de provar que a instituição pode ser técnica e independente, mesmo quando as decisões — como a manutenção de juros altos — desagradam quem o nomeou. O juro básico da economia brasileira, está a 15% há mais de seis meses.

