Vendo, no meu gabinete, na Casa d’Agronômica, cinquenta CDs de uma coleção completa das obras de Mozart, um amigo, que sabe que ele morreu jovem, ficou admirado com a grande quantidade de obras compostas pelo mais célebre cidadão de Salzburg.
Neste domingo, 31 de janeiro, os amantes da verdadeira música comemoram os 213 anos de nascimento de Franz Schubert, outro grande mestre austríaco da música clássica, que teve uma produção também inacreditável, não obstante tenha morrido precocemente, e, assim como Mozart, pobre e abandonado.
Schubert marca, como ninguém, a passagem do estilo clássico para o romântico; pois é clássico na forma e na estrutura das suas composições instrumentais, na linha de Haydn, Mozart e Beethoven, mas inovador no que diz respeito à harmonia, deu às suas obras um sentido livre e romântico.
Sua produção é inacreditável, seja pela quantidade, seja pela qualidade. Quando morreu, aos 31 anos, havia acumulado cerca de seiscentas canções, desde seus famosos “Lieds”, até óperas, sinfonias e sonatas, dentre outros trabalhos.
Dizem que compôs duas de suas obras-primas num único dia: a primeira, numa taberna, onde interrompeu o seu passeio da tarde; a segunda, ao anoitecer, já de volta aos seus aposentos.
Vanguardeiro, antecipou-se a Berlioz, Liszt e Chopin, em novas técnicas de composição, como fica claro em seus “Improvisos”. Por isso, embora pouco reconhecido em vida, mereceu ser aclamado como gênio por Beethoven.
Ele não teve toda a genialidade de Mozart, no que diz respeito à clareza de estilo; ficou aquém de Beethoven, na complexidade da construção musical; mas, em termos de sugestão poética, supera seus pares. Isso porque compunha a partir de poemas de Goethe, Schiller e Shakespeare. Além disso, seis de suas canções têm letra de Heinrich Heine!
Franz Liszt refere-se a Schubert como “le musicien le plus poète qui fut jamais” (“o mais poeta dos músicos de sempre”).
Assim como todos os compositores clássicos que sucederam Beethoven, Schubert também o venerava; e foi profundamente influenciado pelo estilo alegre, quase leviano, de Mozart. Portanto, não é coincidência o fato de os austríacos tê-los feito compartilhar o mesmo espaço em suas moradas definitivas.
Muita gente se admira de como eu suporto uma agenda de trabalho estressante, e a forma calma e tranquila como encaro as situações mais enervantes e desafiadoras. Talvez a resposta esteja num costume que mantenho há décadas, de trabalhar ouvindo os mestres da música erudita, o tempo todo.
Por sua estrutura lógica e profundidade, a música clássica é um refrigério contra as tensões naturais ao exercício de uma função que tem de arbitrar pressões e interesses conflitantes. Ela é um bálsamo para as angústias e aflições dos tempos atuais!
Fuja de um telejornal cheio de notícias deprimentes e depressivas. Ouça a Orquestra Sinfônica de Berlim tocando a “Ave Maria” de Schubert. Você sentirá sua alma encher-se de paz, alegria, esperança; vontade de viver e lutar contra os males e iniquidades.

