terça-feira, 24 março , 2026

Bolsonaro não gosta do meu filme

Há um um filme na Netflix: Gostos e Cores. Produção francesa, direção de Myrian Aziza. Em inglês: To each, her own. Adapto ao português: Ela inteira para cada um. Assim fica melhor expresso o que o enredo propõe: alguém pode envolver-se afetivamente com pessoas diferentes sem dilacerar a própria existência.

Já a “proposta” central do filme, pois, está fora dos conceitos predominantes. Contudo, o “grave” na película é que toda a narrativa está fora dos padrões “aceitáveis”. O intolerável, no filme, é explicitado mesmo no seio de comunidades supostamente libertárias, dadas as suas condições “alternativas”.

A personagem principal compõe uma família judia tradicional que abriga, dentre três, um filho e uma filha gay. O filho gay censura a infidelidade da irmã à sua “esposa”. A “esposa” sente-se traída quando a “mocinha” namora um homem. O homem, um masculino politicamente correto, sente-se sexualmente usado.

O sujeito não é um francês convencional, branco, cristão. Trata-se de um negro senegalês muçulmano. Sua mãe o quer casado conforme a tradição, por arranjo de famílias. Seus amigos suspeitam da mulher branca e judia. O casal peca por tão só relacionar-se, e peca mais, comendo salame (carne de porco).

Se quem me lê nutre algum preconceito (sentimento geralmente hostil fundado em equívocos conceituais hauridos do senso-comum circulante) seguramente vai encontrá-lo revelado, contrastado e denunciado no correr do filme: religião, tradição familiar, sexismo, possessividade, racismo, chauvinismo. Bolsonaro não gosta do meu filme. Nele não há Superação, o milagre da fé, o filme de Bolsonaro. No meu filme há gostos e cores: todas as coisas se podem tentar. Ele não enreda legitimação, nem aos feudos mentais da direita boçal, nem aos devaneios imaginativos prenhes de autoritarismo de certa esquerda.

Bolsonaro quer afastar o Brasil do pecado. Ora, como é possível a vida sem pecado? O estar proibido pelos mandamentos religiosos não significa não existir. Por que existe? Porque é possível, porque nada é determinado, porque há liberdade (Kierkegaard). Há consequências, mas isso é outra coisa. Justiniano imperou sobre a banda do mundo em que vivemos de 527 a 565. Morreu em Constantinopla, cidade que leva o nome de Constantino, outro imperador (306 a 337), instaurador do catolicismo e editor da Bíblia (concílio de Niceia, 325)  – o “povo”, um dia, acabará sabendo dessas coisas, espero.

Um como o outro, com o poder do Império Romano, fizeram das suas as vontades gerais: “Ou é católico, ou está morto”. Constantino impôs a crença católica como única. Justiniano aprofundou o controle sobre a moral e sobre os prazeres do corpo. A Tradição Ocidental estava sob a sua vontade. Teodora, a imperatriz, inspirava Justiniano. A mulher que governava a par com o imperador fora bailarina circense e prestara serviços sexuais. Vivera os prazeres da vida, “desregrara-se”. Um dia Teodora morreu. Justiniano sofreu. Que Roma sofresse com ele: todos os locais em que se risse foram fechados.

Uma causa de amor de um déspota. Já, nós, estamos sob a causa ideológica de uma mentalidade esbirra. Bolsonaro quer fechar os locais em que se pensa. Ele supõe que certos saberes desenvolvem inteligência à esquerda. A ele interessa que muitos lugares produzam ignorância à direita. Não que à direita falte inteligência. Refiro os toscos: Bolsonaro quer restringir o ensino de Ciências Sociais e Filosofia porque imagina que aí estão os “comunistas”. Ora, alunos de Humanas são cerca de 1% das Federais. Ademais, estudantes de Exatas voltam-se igualmente à resolução de problemas da Sociedade. A birra de Bolsonaro é ideológica: modo de pensar, de viver. Se é isso que pensa e vive, será desse modo que Bolsonaro governará. Desafortunadamente, a Bolsonaro não falta coerência. Ele está conforme o prometido em campanha. Ele é isso. Talvez seus eleitores mudem de ideia. Ele não. Veja-se:

“A linha mudou, a massa quer respeito à família. Eu tive uma agenda conservadora, defendendo a maioria da população brasileira, seus comportamentos, sua tradição judaico-cristã” (sobre comercial do Banco do Brasil que tem jovens negros, brancos, cabelos coloridos, tatuagens) (https://glo.bo/2WcFG08). Felizmente, a livre iniciativa é menos conservadora: “Contra a maré – Ao censurar uma propaganda do Banco do Brasil protagonizada por atores que representam diversidade racial e sexual, o presidente Jair Bolsonaro tira a instituição financeira de uma tendência já consolidada no mercado publicitário.

Só nesta semana, agências como a Young & Rubicam, a Ogilvy e a AlmapBBDO soltaram peças que abordam violência contra transexuais, meninos brincando de boneca e presença de mulheres em profissões com baixa representatividade feminina” (Cunha, J, FSP, 27abr19). Estamos em guerra ideológica.

Bolsonaros prestigiam certas disciplinas. Certo, elas são mesmo importantes. Alguns, contudo, queremos elas e outras não menos necessárias: “Não lemos e escrevemos poesia porque é moda. Lemos e escrevemos poesia porque fazemos parte da raça humana. E a raça humana está impregnada de paixão.

Medicina, Direito, Administração, Engenharia são atividades nobres, necessárias à vida. Mas a poesia, a beleza, o romance, o amor, são coisas pelas quais vale a pena viver” (Sociedade dos Poetas Mortos – Tom Schulman, roteiro, Peter Weir, direção). E nos são imprescindíveis as ciências que pensam a Sociedade.

Simon Schwartzman: “A pesquisa social no Brasil lida com questões fundamentais, como pobreza, desigualdade, emprego, violência, saúde pública, demografia” (Saldaña, P, Gamba, E, FSP, 27abr19). Para a mentalidade bolsonara, tudo isso é “caso de polícia”. A diversidade do meu filme diz que EleNão.

Continue lendo

Laguna abre consulta pública para PPP de Cidade Inteligente com foco em inovação e sustentabilidade

FOTO Notisul Tempo de leitura: 4 minutos A Prefeitura de Laguna anunciou a abertura da consulta pública do projeto de Parceria Público-Privada (PPP) de Cidade Inteligente....

Planos diretores e cidades resilientes: o papel do TCE/SC na governança 

 Em Santa Catarina, eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e passaram a integrar a realidade das cidades. Nesse contexto, avaliar o nível de...

Rosário da Madrugada com Frei Gilson mobiliza fiéis e será transmitido em paróquia de Monte Castelo

A Paróquia São Francisco de Assis, em Monte Castelo, promove na madrugada do dia 28 de março, de sexta para sábado, às 3h30, a...

Dia Mundial da Tuberculose reforça alerta sobre sintomas e tratamento

IMAGEM PMT/SS Divulgação Notisul Tempo de leitura: 3 minutos Nesta terça-feira (24) é celebrado o Dia Mundial da Tuberculose, data que reforça a importância da conscientização...

ACIT lança Núcleo de Agronegócios para fortalecer o setor em Tubarão

FOTO ACIT Divulgação Notisul TEMPO DE LEITURA: 3 minutos A Associação Empresarial de Tubarão (ACIT) realizou, nesta segunda-feira (23), a primeira reunião do seu novo Núcleo...

Casal celebra 60 anos de união e reúne quatro gerações em Araranguá

FOTO A/P Divulgação Notisul TEMPO DE LEITURA: 2 minutos Um casal de Araranguá viveu um momento especial neste mês ao celebrar suas bodas de diamante, marcando...

Sigma Park seleciona sete startups para incubação e impulsiona inovação em Tubarão

FOTO Sigma Park/CIT Divulgação Notisul TEMPO DE LEITURA: 4 minutos O Sigma Park – Centro de Inovação de Tubarão anunciou as startups aprovadas para seu programa...

Previsão do tempo: terça-feira 24 será de instabilidade no Sul de SC

TEMPO DE LEITURA: 2 minutos A previsão do tempo para esta terça-feira (24) indica um dia de céu encoberto, chuva leve e alta umidade em...