No Brasil, o futebol é mais do que um esporte — é um espelho nacional. Reflete alegrias, política, tragédias e identidade. Mas o mesmo protagonismo que o tornou símbolo do país também projetou uma sombra sobre as demais modalidades. O resultado é um centralismo esportivo que concentra atenção, recursos e visibilidade quase exclusivamente em torno da bola.
Quando o futebol virou Estado
A hegemonia do futebol brasileiro não nasceu do acaso. Durante a Era Vargas (1930–1940), o governo entendeu o potencial do esporte como ferramenta de unificação nacional. O Estado interveio em federações, clubes e ligas, e transformou o futebol em símbolo de identidade.
Em 1938, o terceiro lugar do Brasil na Copa do Mundo foi usado como propaganda nacionalista. A partir dali, o esporte se tornou política de Estado — e o eixo Rio–São Paulo consolidou-se como centro esportivo e midiático do país.
Quase um século depois, essa herança ainda define o mapa esportivo brasileiro. Enquanto o futebol movimenta patrocínios milionários e transmissões internacionais, dezenas de modalidades seguem invisíveis.
O ciclo da visibilidade: mídia e cultura
A cultura do futebol é também uma cultura de silenciamento.
A cobertura esportiva nacional repete o mesmo eixo narrativo: “esporte” é sinônimo de futebol. Quanto mais o futebol aparece, mais recursos atrai; quanto mais recursos recebe, mais se distancia dos demais esportes.
Essa dinâmica começa cedo. Nas escolas, ensina-se o drible antes da corrida, o gol antes do salto. Assim se forma a ideia de que ser atleta no Brasil é ser jogador de futebol — qualquer outra escolha exige resistência.
Santa Catarina: resistência esportiva fora do campo
No Sul do Estado, cidades como Tubarão, Laguna e Imbituba se tornaram laboratórios de resistência esportiva.
Em 2025, Tubarão estreou sua primeira equipe de surf nos Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC), com mais de cem atletas reunidos na Praia Mole, em Florianópolis. A equipe formada por Bruno Bossle, Renato Hübbe e Fernando Rinaldi marcou a estreia simbólica da cidade nas ondas.
“A gente não compete só por medalha, compete por reconhecimento”, disse Bruno Bossle.
Mesmo assim, o surf segue sem espaço fixo no calendário oficial dos JASC — falta estrutura, visibilidade e patrocínio, não talento.
A força do corpo: campeões invisíveis
Enquanto o futebol domina os holofotes, esportes de força seguem na sombra.
O lagunense Yuri Rafael, 28 anos, foi campeão mundial de powerlifting em Camboriú, levantando 295 kg no agachamento e 220 kg no supino.
A tubaronense Mira Miranda, ouro no Sul-Americano da modalidade, superou o próprio recorde com 270 kg.
Antes de ser atleta, Mira foi empregada doméstica. Hoje, inspira jovens em escolas da cidade.
“O que eu levanto não é só peso, é o que colocam sobre a gente: falta de apoio e preconceito”, diz.
Tatames e piscinas: talento da base
A karateca Ana Luiza Santos, de Tubarão, garantiu em 2025 sua quinta convocação para a Seleção Brasileira de Karatê. Já o jovem Davi Borges dos Anjos Canarin, 15 anos, também de Tubarão, é o número 1 do mundo em sua categoria juvenil de jiu-jitsu, fruto de um projeto social.
Na natação, a catarinense Letícia Avelino conquistou três ouros nos Jogos da Juventude, enquanto Matheus Rosa quebrou o recorde continental no revezamento 4×200 metros livre no Sul-Americano Juvenil.
“O talento existe. O que falta é olhar”, resume um técnico da Fundação Municipal de Esporte.
Centralismo esportivo e desigualdade
Segundo o Ministério do Esporte, entre 2020 e 2024, mais de 70% dos patrocínios federais foram destinados ao futebol. Essa concentração não é apenas financeira — define o que é contado, transmitido e lembrado.
Enquanto o futebol é tratado como espetáculo e indústria, outros esportes sobrevivem como vocação e resistência.
“Enquanto tratarmos o esporte apenas como futebol, desperdiçaremos talentos que poderiam transformar comunidades”, avalia um gestor esportivo catarinense.
O desafio de ampliar o conceito de esporte nacional
Romper o centralismo do futebol exige mais do que campanhas. É preciso reconstruir o imaginário coletivo: o esporte brasileiro não se resume a 90 minutos.
Projetos como o Bolsa Atleta Municipal e a inclusão de novas modalidades nos JASC mostram que é possível diversificar o ecossistema esportivo. Mas o desafio maior é cultural — aprender a vibrar com um ippon, um mergulho ou uma onda com a mesma emoção de um gol.
O Brasil é maior que o futebol.
E, nas entrelinhas do silêncio esportivo, há uma potência esperando por reconhecimento.

