domingo, 28 junho , 2026

Brasil não vai mudar com ‘grande pai, grande mãe, ou salvador da pátria’, diz Marina Silva

A ex-senadora Marina Silva, pré-candidata à Presidência da República pela Rede, afirmou neste domingo (6), na Universidade de Oxford, que há um movimento de “infantilização” da política em diversos países do mundo, pelo qual os eleitores buscam “salvadores da pátria” para solucionar crises políticas e econômicas. Para ela, a busca por este tipo de liderança não trará renovação e mudanças ao Brasil.

“O mundo em crise vai precisar do trabalho de sujeitos capazes de se responsabilizar pelas próprias vidas. O problema é tentar regredir para um processo infantil”, criticou, durante palestra no Brazil Forum UK, evento anual organizado por brasileiros que estudam no Reino Unido.

“Em vários lugares do mundo estamos regredindo. As pessoas querendo o grande pai, a grande mãe, o grande salvador da pátria. O mundo não vai mudar com uma politica que infantiliza”.

Em uma fala de 45 minutos, Marina Silva elencou as principais conquistas dos partidos tradicionais ao dizer que o que deu certo deve ser transformado em “direito”, enquanto é preciso corrigir erros.

Ela lembrou que o MDB foi um partido importante na luta pela democracia, destacou que o PSDB estabilizou a economia com o Plano Real, e que o PT reduziu a desigualdade social e a pobreza com o Bolsa Família.

“Temos que pensar de uma forma não niilista. Com certeza queremos preservar a democracia, não queremos ter crise econômica, nem iniquidade social”, afirmou ela, ao defender menos radicalidade e polarização nos posicionamentos políticos.

Ela disse ter saudade da eleição presidencial de 2010, quando os oponentes eram capazes de se cumprimentar com respeito.

Marqueteiro “do mal”

Durante a participação na conferência, Marina Silva foi perguntada sobre que lições ela tira de duas derrotas como candidata à Presidência (em 2010 e em 2014). Ela afirmou que um erro foi “subestimar as estruturas que dominam o poder”.

A ex-senadora disse que a eleição de 2014 foi uma “fraude”. Para ela, a campanha eleitoral da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) daquele ano manipulou informações para desconstruir sua candidatura.

“Em 2010, eu participei do processo e foi uma eleição razoavelmente civilizada. Mas em 2014 ultrapassamos o limite da ética. Se você ganha mentindo, vai governar mentindo; se ganha com violência vai governar com violência”, afirmou.

Marina Silva lembrou que tinha em sua equipe de campanha a socióloga Neca Setubal, herdeira do banco Itaú, e que isso foi usado contra ela pela campanha de Dilma. Na ocasião, Marina Silva foi acusada de defender os interesses de “banqueiros”.

“Isso graças a um marqueteiro, o João Santana, muito competente para o mal, com R$ 30 milhões de caixa dois”, criticou. “Não pode uma pessoa ganhar com o discurso do marqueteiro e não fazer nada daquilo (que prometeu).”

Questionada sobre como iria governar sem alianças partidárias que garantam votos no Congresso Nacional, ela respondeu alfinetando Dilma Rousseff. “Quando você pergunta como vou governar com três deputados e um senador, você tem que perguntar para quem tinha mais de 300 e não governou.”

Mudanças estruturais

Marina Silva também defendeu mudanças estruturais no sistema eleitoral como necessárias para uma renovação real da política. Uma das prioridades, segundo ela, deveria ser o barateamento das campanhas.

“Não tem como ser politicamente democrático quando a gente substitui projeto de país por projeto de poder, onde compromissos são pragmáticos e não programáticos, e o que vale é tempo de televisão e dinheiro.”

Ela também defendeu a diversificação da economia e investimentos em logística e infraestrutura.

“Não tem como o Brasil ser economicamente próspero com uma indústria que representa 11% do PIB quando já foi 25%. Quando a gente perde 30% da produção agrícola por falta de logística e armazenamento.”

Depois do evento, a pré-candidata disse a jornalistas que vai usar os 10 segundos que terá na TV e no rádio para remeter aos programas e propostas que estarão disponíveis na internet.

Ela negou ter conversado com o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e recém filiado ao PSB, Joaquim Barbosa, sobre uma potencial chapa com os dois.

“Eu respeito a decisão dele de querer ser candidato, do PSB querer ter uma candidatura; é legítimo. Isso não impede que a gente tenha pontos de contato, de diálogo, partidariamente falando”, afirmou, dizendo que com Barbosa falou apenas duas vezes na vida.

Marina disse que está se coligando com vários movimentos como o Agora, Acredito, Brasil 21, Frente Favela. “Eu antecipei a tendência quando disse, em 2010, que a aliança era com os núcleos vivos da sociedade. Sempre defendi a quebra do monopólio dos partidos, com candidaturas avulsas”.

Questionada sobre as conversas sobre uma possível entre o presidente Michel Temer e o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ela diz que foi esse tipo de aliança que levou o Brasil ao fundo do poço.

“Agora as pessoas sabem a verdade e a lei deve ser para todos. A preocupação é o que as pessoas vão fazer com a verdade. Essa é uma questão que está posta: se que vai vencer é a postura do cidadão, ou as estruturas do dinheiro, do marqueteiro, do tempo de televisão”.

Para Marina Silva, as alianças feitas pelos partidos tradicionais não são capazes de resolver os problemas do Brasil.

“Não acredito que a visão e as práticas que criaram o problema vão resolver o problema, pelo contrário. Principalmente os grandes partidos que estão aliançados para acabar com a Lava Jato. PT, PMDB, PSDB, DEM divergem em quem vai pegar o poder, mas não divergem (em relação) ao combate à Lava Jato”, disse, em Oxford.

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