N o fim dos anos 80, ainda como estudante na Unisinos, resolvi adquirir um curioso e interessante livro com o título: “Vida e Morte da Ditadura: 20 anos de Autoritarismo no Brasil”, de Nelson Werneck Sodré. A obra dissecava em minúcias todo o processo ditatorial, a estruturação da operação, o poder político, o poder militar e o controle econômico.
Hoje, vendo o povo totalmente desiludido à forte insatisfação com o atual governo, não raro notamos as pessoas pedirem por uma intervenção militar. Contudo, dois pesos e duas medidas. O que se quer é ordem e progresso, e não censura radical. Seria possível um meio termo? Um controle político com a força militar nas ruas para evitar o caos social, se preciso for?
Como diz o Delcídio: “Vem muita confusão por aí…”. E é este o foco deste artigo. Não a confusão, mas a verdade dos fatos. Moro deflagrou a Aletheia, batizando esta fase da lava-jato com a palavra grega significando verdade e indo além na busca pela verdade, que sem dúvida, quando aparece em seu sentido mais amplo e puro pode mesmo derrubar governos.
Uma das partes mais interessantes do livro acima citado é a introdução, que apresenta “Cabeças redondas, cabeças pontudas”, peça que Brecht escreveu entre 1932 e 1935 como sátira ao nazismo que despontava e tratava de esconder a realidade de uma crise e suas causas materiais. Assim, para os cabeças redondas o nazismo era chamado de democracia, a impostura como cultura, a verdade era a mentira e a mentira consagrada como verdade. Já, os cabeças pontudas eram perseguidos e exilados por buscarem a verdade.
Brecht dá seu recado. “Quem quer combater a mentira e a ignorância deve vencer, no mínimo, cinco obstáculos: é preciso a coragem de proclamar a verdade quando ela é sufocada e banida; a inteligência para reconhecê-la, quando a escondem sistematicamente; a arte de fazer dela uma arma manejável; a capacidade de escolher os que a podem torná-la eficaz e a habilidade para fazê-la inteligível”.
Estas dificuldades para serem transpostas exigem coragem, abnegação, renúncia, trabalho e luta. Poucos até hoje, como o juiz Sérgio Moro, demonstraram esta força imparcial e a verdade está fazendo com que, em um universo democrático e antiautoritário os muros da mentira e da corrupção desmoronem, porque a linguagem da verdade é nítida, dura, seca, precisa e contundente. No curso da história, os povos sobreviveram aos desastres, crises e sofrimentos distinguindo, amando e afirmando a verdade como condição fundamental para seu avanço e felicidade. A liberdade sempre acabou por enterrar seus opressores.