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Cafundó da Serra produz desde 1988 com cana própria e envelhece a bebida por pelo menos 10 anos antes de envasar
O nome pode parecer inusitado, mas carrega história. Cafundó da Serra nasceu de uma expressão usada pelos tropeiros que desciam as trilhas da Serra do Rio do Rastro rumo ao litoral, passando pelas propriedades da família Godinho, em Lauro Müller. “A gente desce pelo Cafundó da Serra”,
diziam eles à bisavó do atual produtor. Décadas depois, esse nome virou marca, identidade e, acima de tudo, qualidade reconhecida no mundo inteiro.
Eduardo Godinho é filho do fundador da cachaçaria e herdou do pai não apenas o negócio, mas todo o conhecimento.
“Tudo que eu aprendi, eu aprendi com meu pai. Meu professor foi ele”,
conta. A produção começou de forma informal em 1988, cresceu pelo boca a boca e só foi formalizada em 2004, quando nasceu oficialmente a Cafundó da Serra.
Desde o plantio até a entrega ao consumidor, tudo é feito pela própria família. A propriedade já chegou a cultivar 15 hectares de cana-de-açúcar, mas hoje trabalha com 6 a 7 hectares, em parte por causa da dificuldade de encontrar mão de obra. Em época de produção, que vai de junho a outubro, a cachaçaria opera com cinco funcionários. No restante do ano, Eduardo, sua esposa e mais um funcionário tocam o negócio, envasando, rotulando e cuidando do envelhecimento nos barris.
O segredo está no coração

A qualidade da Cafundó da Serra começa na destilação. Eduardo explica que a cachaça produzida aproveita apenas a parte chamada de “coração”, a fração que sai entre 60 e 40 graus alcoólicos.
“De 60 a 40 é a parte do coração, que é a melhor parte da cachaça, que não te dá dor de cabeça, não te resseca a boca, todos os itens bons do destilado estão ali”, explica.
A cabeça, que sai com teor alcoólico acima de 60 graus, e a cauda, abaixo de 40, são descartadas ou redistiladas. O que sobra vai descansar, por no mínimo 10 anos, antes de chegar ao consumidor.
“A cachaça é um diamante sendo lapidado. Produzir hoje e amanhã já começar a comercializar, ela vai estar forte, vai estar ácida, não vai ter um bom paladar na boca”,
justifica Eduardo.
Os barris usados no envelhecimento são de carvalho, amburana, bálsamo e carvalho americano, todos importados, majoritariamente da Itália e, em algumas ocasiões, já usados na maturação de uísque. Hoje a cachaçaria investe também em barris virgens, comprados em Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul.
Cada barril é numerado e datado, e o acompanhamento do envelhecimento é feito ao longo de todo o processo.
Após o descanso, a cachaça é padronizada com água destilada para atingir 42 graus alcoólicos, o padrão da Cafundó desde o início.
A cachaçaria possui atualmente cinco rótulos: prata, carvalho, bálsamo, amburana e blend, sendo o último uma combinação das três madeiras em proporções definidas pela própria família.

Melhor destilado do mundo
Em 2017, veio o primeiro grande reconhecimento: uma premiação nacional que era o sonho do pai de Eduardo.
Mas o marco que consolidou a cachaçaria no cenário mundial chegou em 2020, no Concurso Mundial de Bruxelas, considerado um dos mais importantes do setor, onde competem uísques, gins, tequilas e todos os destilados do mundo.
A Cafundó da Serra saiu de lá com a medalha de duplo ouro, sendo eleita o melhor destilado do mundo naquele ano.
“Para nós foi uma satisfação muito grande”,
resume Eduardo.
Desde então, as premiações se acumularam: medalha de ouro em Bruxelas em 2018, ouro em Minas Gerais em 2020 e 2023, prata em Lyon, na França, em 2024, mérito sensorial em 2025 e medalha de ouro em Lyon em 2026.
A linha Carvalho também brilhou, sendo eleita a melhor cachaça do Brasil em Minas Gerais em 2025, competindo com 600 rótulos de todo o país.
O reconhecimento internacional chegou a incomodar os produtores mineiros, historicamente dominantes no setor.
“Em 2017, quando a gente ganhou a primeira premiação, os mineiros pediram para revisar a pontuação do concurso. Eles não acreditaram que tinha alguém melhor que eles”,
recorda Eduardo.
A revisão foi feita, o resultado mantido.
“A gente aprendeu com eles, eles ficaram acomodados e a gente está produzindo qualidade também.”
Como reconhecer uma boa cachaça
Para quem quer saber se está diante de uma cachaça de qualidade antes de pagar por ela, Eduardo dá uma dica simples.
“Se ela é macia na tua boca, se não te agride, toma ela. Ela te desce suave, redonda, não te desce queimando”,
orienta.
Outro indicador é a oleosidade visível no cálice, a “lágrima” que escorre pelo vidro após a bebida passar pela borda.
“Aquilo ali significa que ela tem qualidade na destilação, higiene, na produção total, limpeza de alambique, fermentação em dia”, explica.
Sobre a fala popular de que cachaça boa faz coroa ao ser sacudida na garrafa, Eduardo é direto: é mito.
“Isso varia muito da terra que a planta é plantada. Se é uma terra com mais areia, ela vai fazer coroa. Se é um solo argiloso, ela não vai fazer. E aqui a terra é muito argilosa.”
A cachaçaria recebe visitantes para conhecer o processo produtivo e oferece degustação no local. Para quem não pode ir até Lauro Müller, os produtos são enviados para todo o Brasil.

Esta reportagem integra o projeto Estúdio de Inverno 2026, realizado pelos veículos UNITVSC, Notisul, UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina, em parceria com as rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.

