N os cinco mandatos de vereador, solicitei, sempre, no início de cada ano, que representantes da Igreja (ou de igrejas) discorressem, na Câmara, sobre o tema da Campanha da Fraternidade.
Neste ano, a referida Campanha cujo tema é “Fraternidade e Tráfico Humano” visa “identificar as práticas de tráfico humano, em suas várias formas, e denunciá-las como violação da dignidade e da liberdade humana, mobilizando cristãos e pessoas de boa vontade para que se erradique esta chaga social com vista ao resgate da vida dos filhos e filhas de Deus”. O Lema: “É para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1)”.
O cartaz denuncia, mesmo não sendo a intenção, o desserviço que prestou a historiografia oficial, veiculada pelas escolas oficiais, à formação dos brasileiros.
Nele aparecem, acorrentadas, mãos de pessoas brancas e negras, “simbolizando a situação de dominação e exploração de irmãs e irmãos traficados e o seu sentimento de impotência perante os traficantes”. Outra mão, a que sustenta as correntes, “representa a força coercitiva do tráfico, que explora vítimas, que estão distantes de sua terra, de sua família e de sua gente”.
Tráfico de pessoas brancas e em pleno século XXI? Mas a escravidão não foi abolida no Brasil em 13 de maio de 1888 e os escravos não eram pessoas de pele negra?
Para os que ficaram apenas com a limitada versão escolar, as perguntas acima são mais que pertinentes. Afinal, ensinou-se que a escravidão foi extinta no Brasil, por meio da lei Áurea, e escravos eram homens e mulheres afrodescendentes. Que a escravidão dos negros foi ato de maldade dos europeus e a “libertação”, de bondade da Princesa Isabel, sem enfatizar que, antes, foi fonte de altíssimo lucro (Entre 1530 e 1888, foram os escravos que produziram toda a riqueza do Brasil).
Tal abordagem dificulta compreender a abrangência – e prevenir-se – do criminoso ‘negócio’, bem como a conquista da liberdade e da autoestima pelos negros e induz a (auto)discriminação.
Exceto, para os que acompanham, nos noticiários, a libertação de trabalhadores, com diversas colorações de pele, ‘em situações análogas ao de trabalho escravo’, inclusive aqui na Santa e Bela Catarina.
Ou para os que acompanharam a novela “Salve Jorge”, da TV Globo, em 2012, que alertou para o aliciamento e assassinato de pessoas (por meio de overdose de drogas, para manter o sigilo do ‘negócio’), divulgados como suicídio. Na relação entre Trabalho e Capital se constata que, na Antiguidade Clássica, escravo era todo povo dominado por outro, independente da cor da pele, e que, até bem pouco tempo, quando se falava de trabalho, fazia-se referência a trabalho escravo.
Não por acaso, a palavra trabalho é originária de tripalium, que significa instrumento de tortura.
Quer dizer: pessoas são escravizadas, desde os primórdios da humanidade, independente da cor da pele, para diversos fins, e prosseguem em muitas regiões do mundo (são 29,8 milhões, como informou o Índice Mundial de Escravidão, publicado pela Foundation Walk Free, em outubro do ano passado), como milionária fonte de lucro (32 milhões de dólares anuais, segundo a ONU). No Brasil, a escravidão acabou, apenas, como política de Estado.
Tal lucrativa crueldade do homem contra o homem deve ser combatida, sem tréguas, com campanhas, denúncias, forte fiscalização, cumprimento da lei e com melhor ou menos obtusa educação.

