segunda-feira, 30 março , 2026

A canção que mora em meu colo 

 

“Eu te amo, tu me amas e a vida é bem-vinda.
Sou feliz, bem feliz, penso sempre o melhor
De você e de mim, no universo sem fim.
Só o amor por você fez o mundo nascer.” 

No início dos anos 90, participei de um treinamento com o psicoterapeuta Ivo Fachini, em Florianópolis. Até hoje, guardo esse momento com serenidade e uma nitidez que o tempo não apagou. 

Em determinado ponto, falando sobre vínculos, ele perguntou quem ali tinha filhos. Entre muitas mãos, levantei a minha. Eu havia retornado há poucos dias da licença-maternidade da Marina, enquanto Caio tinha apenas um ano e meio. Foi então que o Dr. Ivo nos ensinou uma pequena canção — justamente os versos que abrem esta crônica. 

Aquela melodia fazia parte de um processo terapêutico que ele havia desenvolvido. Curiosamente, não guardo lembranças da ementa do curso,  

mas essa canção encontrou um lugar definitivo na minha consciência e, sobretudo, no meu coração.

Eu atravessava, naquele momento, uma separação muito dolorosa. E, se o propósito era fortalecer vínculos, era exatamente disso que eu precisava. Talvez, para muitas mulheres, aquela simples canção não tivesse o mesmo impacto. Mas, para mim, ela foi um verdadeiro presente. 

Ele nos orientava a cantar para nossos filhos — ou para qualquer criança que precisasse de acolhimento. A melodia, segundo ele, acalmava. As palavras, por sua vez, trabalhavam silenciosamente a autoestima e fortaleciam o laço invisível — e tão poderoso — entre mãe e filho. 

E há algo que só o colo sabe explicar. Porque não é apenas a música. É a energia que circula entre braços que acolhem e um corpo pequeno que se entrega.

É o calor, o ritmo da respiração, o embalo suave (embora o meu as vezes seja mais forte) — e a voz que, mais do que cantar, envolve. 

Quantas vezes desejei que essas palavras pudessem sair do papel e pousar, inteiras, no colo de quem tanto transformou a minha vida com meus filhos. Mas a vida seguiu seu curso, e hoje, ele orienta em outra dimensão. 

Ainda assim, eu diria: você estava certo, Ivo Fachini. Muito certo. 

Lembro com emoção do dia em que subi ao palco para cantar essa música para quase mil pessoas. Segurava a mãozinha pequena e delicada da Marina, que, com orgulho, me empurrou para frente em um concurso, dizendo que eu cantava a música mais linda que uma mãe podia cantar. 

E a vida, como sempre, ampliou o sentido de tudo. 

Anos depois, já adultos, em momentos distintos, meus filhos me pediram:
“Eu preciso que tu cantes aquela música para mim.” 

Naquele instante, eu soube — algo não estava bem. E, mais uma vez, a música se fez colo. Foi remédio, foi presença, foi abraço invisível.

E funcionou. Para eles. Para mim. Para nós. 

Essa cantiga nos uniu de tal forma que deixou de ser apenas uma música. Tornou-se quase uma oração. Uma linguagem silenciosa que atravessa o tempo, a distância e até o que não conseguimos dizer. 

Porque, no fundo, é pura energia. É amor em movimento. 

Tempos atrás, Marina me pediu que escrevesse os versos em um papel. Meu coração se encheu de orgulho. Pensei que ela queria guardar a lembrança dos nossos momentos. E talvez fosse mesmo isso — ou talvez fosse mais: guardar um pedaço desse vínculo que nunca se desfaz. 

Hoje, posso cantá-la em voz alta ou em pensamento. E, quando estou longe deles, fecho os olhos, penso em cada um… e canto. 

“Eu te amo, tu me amas e a vida é bem-vinda…”

Agora, essa canção encontrou novos braços. 

Canto para minha neta Melissa sempre que a tenho no colo. E, enquanto a embalo, sinto que o amor não se repete — ele se expande. 

Há músicas que se escutam. Outras, se vivem.
E existem aquelas raras — que se tornam colo, que viram ponte, que atravessam gerações. 

Talvez seja essa a verdadeira força do amor entre mães e filhos:
uma canção que nunca termina… apenas muda de voz. 

Nos vemos nas próximas linhas! 

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