quarta-feira, 4 fevereiro , 2026

Clientes do Master e do Will Bank relatam dívidas indevidas registradas pelo BRB no Banco Central

Clientes que contrataram empréstimos ou serviços financeiros no Will Bank ou no Banco Master afirmam que passaram a constar com dívidas ativas ou em atraso no Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central, mesmo após quitação ou sem nunca terem tido tais débitos. Segundo os relatos, os registros foram feitos pelo Banco de Brasília (BRB).

Os casos vieram à tona após consumidores consultarem o Registrato, ferramenta do Banco Central que reúne informações financeiras compartilhadas por instituições bancárias. Muitos afirmam nunca ter tido qualquer relacionamento com o BRB, apesar de constarem como devedores do banco público.

Compra de carteiras explica vínculo com o BRB

O vínculo, segundo apuração, ocorreu porque o BRB vinha comprando carteiras de crédito do Banco Master desde 2024. Em março de 2025, chegou a anunciar a compra do próprio banco, em operação estimada em R$ 2 bilhões, posteriormente vetada pelo Banco Central.

Após a liquidação extrajudicial do Master, uma investigação da Polícia Federal passou a apurar suspeitas de fraudes envolvendo a venda de carteiras de crédito consideradas de baixa qualidade. Parte desses créditos teria sido compensada com a transferência de novas carteiras ao BRB, incluindo contratos originados pelo Will Bank.

É nesse contexto que, segundo relatos, surgiram os registros de dívidas atribuídas a clientes que já haviam quitado contratos ou que afirmam nunca ter contraído tais obrigações.

BRB atribui falha ao liquidante

Em nota, o BRB informou que, após a liquidação do Will Bank, deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas.

“Pelas regras contratuais, a instituição que originou os créditos é responsável por acompanhar os pagamentos e enviar os dados e valores correspondentes ao BRB”, afirmou o banco.

Ainda segundo a instituição, como esse fluxo de informações não foi retomado, o BRB não dispõe de dados suficientes para dar baixa nas operações, o que teria feito com que contratos já pagos aparecessem como ativos ou inadimplentes no SCR.

O g1 tentou contato com o liquidante nomeado pelo Banco Central para o Will Bank e o Banco Master, mas não obteve resposta até a última atualização.

Especialistas divergem sobre responsabilidades

Especialistas ouvidos avaliam que, embora a cessão de carteiras seja prática comum no mercado, há obrigações legais que precisam ser cumpridas.

Segundo o advogado Fabio Braga, sócio da área bancária e financeira do Demarest, a negociação define quem será responsável pela gestão dos pagamentos. Já Pedro Ramunno, professor de direito empresarial do Mackenzie, ressalta que a legislação exige que o consumidor seja notificado sobre a transferência do crédito.

“A cessão só produz todos os seus efeitos quando o devedor é informado de forma comprovada”, explica.

Para Bruno Balduccini, sócio do Pinheiro Neto Advogados, a instituição compradora passa a ser responsável por classificar corretamente os clientes e atualizar as informações. “Essa atualização deve ser imediata”, afirma.

Gustavo Kloh, professor da FGV Direito Rio, reforça que o banco não pode registrar informações equivocadas no Banco Central. “Mesmo que não tenha causado o problema, o BRB é responsável por apresentar uma solução ao consumidor”, diz.

Prejuízos e aumento de reclamações

A manutenção de dívidas indevidas no SCR já causou impactos diretos aos clientes. Um consumidor relatou ter tido um financiamento imobiliário negado devido a uma pendência registrada no nome do BRB. Em outro caso, parcelas no valor de R$ 10 mil continuavam aparecendo como vencidas.

Dados do site Reclame Aqui mostram ao menos uma centena de reclamações em janeiro de 2026. Entre agosto e dezembro de 2025, foram 324 registros, contra 76 no mesmo período de 2024 — aumento de 326%.

Os relatos citam dívidas desconhecidas, contratos quitados e até cobranças de produtos nunca contratados, como cartões de crédito.

Orientação aos consumidores

Especialistas recomendam que os consumidores solicitem, por escrito, informações detalhadas sobre a dívida: contrato, valor atualizado, banco originador e responsável pela cobrança.

Se não houver contrato válido, a cobrança é considerada indevida. Nesses casos, a orientação é registrar reclamação formal junto à instituição, além de recorrer a órgãos como Procon e Consumidor.gov. Persistindo o problema, é possível buscar o Juizado Especial ou a Justiça comum.

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