segunda-feira, 30 março , 2026

Contrapontos: dependência e impactos a longo prazo

Esta é a terceira e última parte da reportagem especial sobre Incentivos Fiscais. Na primeira parte explicamos o que são e para que servem os incentivos fiscais. Na segunda parte, trouxemos alguns cálculos e índices, além da opinião de representantes do setor produtivo. Nesta página você vai saber o papel desempenhado pelos demais poderes e também saber dos riscos de uma política de incentivos mal dimensionada. O esforço para trazer o maior volume possível de informações tem um motivo: no final das contas, é você, cidadão, que sofre os efeitos. Não só como consumidor, mas como empregado, como empresário, como fornecedor de produtos e serviços. 

Vale lembrar que os incentivos não se limitam a tributos. Não raro, as prefeituras cedem áreas e bancam toda a infraestrutura necessária – água, esgoto, energia elétrica, telefonia, coleta de resíduos – para a instalação de uma planta industrial, por exemplo.

Esta série de matérias foi produzida pelos profissionais da Agência AL, da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, e trata de um tema que será recorrente em 2019. Foram ouvidos especialistas no assunto e entidades ligadas ao setor produtivo. Como resultado da cada vez maior aproximação institucional do Poder Legislativo com as entidades que representam parte da comunicação regional o estado – Associação de Diários do Interior (ADI-SC) e Associação de Jornais do Interior (Adjori-SC) –, o conteúdo especial foi publicado em primeira mão, nessa série de três dias, pelos veículos associados, jornais impressos e digitais que são referências em suas regiões.

Embora a concessão dos incentivos fiscais tenha resultados positivos, há questionamentos a essa estratégia adotada pelos estados na briga pela atração e manutenção de investimentos. 

Professor do Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas da Universidade do Estado de Santa Catarina (Esag/Udesc), o economista e doutor em Administração Arlindo Rocha estuda o tema Benefícios Fiscais há mais de 20 anos. Ele reconhece aspectos positivos nessa estratégia, mas acredita que, ao final, os resultados permanentes para o poder público e para o setor produtivo não são bons.

“O incentivo fiscal, a meu ver, é nocivo às economias dos estados e do Brasil. No curto prazo, os efeitos são positivos, pois há aumento nos investimentos e na oferta de emprego. Mas a partir do médio e longo prazo, reduzem a arrecadação e geram dependência.”

Para Rocha, o mais adequado seria atacar os vários pontos que comprometem a competitividade da indústria, com reforma tributária e redução da burocracia por parte de governos que “gastam mal e gastam muito”. O estudioso acredita que benefícios fiscais eternizam a ineficiência dos setores e criam dependência.

“O melhor para resolver o problema da competitividade é reduzir essa tremenda carga em cima do setor produtivo, deixar que as empresas entrem em competição real, inclusive com o exterior.” Ele defende que os benefícios deveriam ser concedidos apenas em situações pontuais, como dificuldades setoriais ou crises econômicas, sempre com zelo para evitar a acomodação por parte do setor, que deve continuar lutando por ganhos de competitividade.

E a população? 

O economista também questiona o impacto dos incentivos à população. Rocha acredita que a redução do imposto não chega necessariamente ao consumidor final e serve para manter ou aumentar as margens de lucros das empresas. Fora o prejuízo para os municípios, já que 25% do ICMS arrecadado é repartido com eles. Se você vai receber menos ICMS, o município também vai receber menos.

O presidente executivo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), João Eloi Olenike, aponta, ainda, que as políticas de incentivo fiscal podem ser “nocivas aos cofres públicos”. Ele considera que seria salutar a criação de limites para a renúncia fiscal, já que atualmente não há nenhum regramento nesse sentido. 

“Isso pode acontecer se a política de incentivo fiscal for mal avaliada em sua concessão e os seus resultados não trouxerem o benefício esperado, causando queda na arrecadação tributária.”

Economista do escritório regional do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese-SC), José Álvaro Cardoso entende que os benefícios fiscais podem ser adotados como estratégia de desenvolvimento, mas defende que devem ser discutidos com a sociedade antes de serem aplicados.

“Como são políticas de grande repercussão social, deveriam ser discutidas com a sociedade, especialmente com os trabalhadores, que são a esmagadora maioria da população. Os trabalhadores deveriam ser consultados, também, porque são fundamentalmente os que geram os impostos arrecadados pelo Estado.”

O que pensam os outros poderes?

No ano passado, a Alesc aprovou uma emenda ao projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2019 que, pela primeira vez, estabeleceu condições para os benefícios. Primeiramente, toda e qualquer concessão deveria ser oficializada apenas após a autorização dos deputados estaduais. Em segundo, estipulou que o Estado deveria reduzir até 2022 a renúncia fiscal com os benefícios para, no máximo, 16% da arrecadação. Para isso, uma comissão da Secretaria de Estado da Fazenda deveria fazer a revisão dos incentivos vigentes.

A questão mobilizou também o Ministério Público Estadual (MPSC). Em janeiro de 2017, o MP ajuizou uma ação direta de inconstitucionalidade (ADI) no Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) contra o artigo 99 da lei estadual sobre o ICMS (Lei 10.297/96), que permitia a homologação dos benefícios fiscais apenas com o silêncio da Assembleia, sem a necessidade da votação de um projeto de lei.

O Judiciário julgou procedente a ação em novembro de 2017 e determinou que, a partir de então, todo e qualquer incentivo só poderia ser concedido com a autorização dos deputados estaduais, mediante votação e aprovação de projeto de lei específico. 

 

O Tribunal de Contas (TCE-SC) não determinou ao governo estadual nenhuma revisão ou convalidação dos incentivos concedidos pela Fazenda. Conforme o diretor da Diretoria de Controle da Administração Estadual do TCE, Sidney Antonio Tavares Junior, o órgão, dentro de suas prerrogativas, abriu procedimentos de auditoria para verificar a questão legal e os resultados obtidos pelo Estado com a concessão dos benefícios. Longe de demonizar os incentivos, o TCE-SC quer controle.

ASSINATURA

Reportagem: Marcelo Espinoza | Foto: Fábio Queiroz

Revisão: Rubens Vargas | Infográfico: Vinicius Adriano Edição: Nikolas Stefanovich e Lúcia Helena Vieira

Continue lendo

Especialista alerta para importância de dormir bem na Semana do Sono

FOTO PROVIDA Divulgação Notisul Tempo de leitura: 4 minutos Dormir bem é essencial para a saúde e o equilíbrio do organismo. O tema ganha destaque durante...

Polícia cumpre mandados e recaptura foragidos em Tubarão e Imbituba

IMAGEM GERAÇÃO IA Notisul Tempo de leitura: 4 minutos A Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) realizou uma série de ações nesta sexta-feira (27) e madrugada...

Homem é preso por tráfico de drogas no bairro Aeroporto, em Tubarão

FOTO: PMSC Reprodução Notisul Tempo de leitura: 3 minutos Um homem de 45 anos foi preso por tráfico de drogas na manhã desta sexta-feira (27),...

Acidente na SC-108 deixa duas jovens mortas em Braço do Norte

FOTOS CBMSC Divulgação Notisul Tempo de leitura: 3 minutos Um grave acidente de trânsito registrado na madrugada deste sábado (28) deixou duas jovens mortas e dois...

Nova empresa assume abastecimento de água em Capivari de Baixo

FOTO PMCB Divulgação Notisul Tempo de leitura: 3 minutos O sistema de abastecimento de água em Capivari de Baixo passa a ser operado por uma nova...

Basquete feminino de Tubarão conquista prata histórica em Miami

FOTOS Divulkgação Notisul Tempo de leitura: 4 minutos O basquete feminino de Tubarão alcançou um resultado histórico nos Estados Unidos. As atletas Isadora de Figueiredo, estudante...

Programa de Incentivo ao Esporte amplia acesso de jovens em SC

FOTOS Leo Munhoz / SecomGOVSC Divulgação Notisul TEMPO DE LEITURA: 5 minutos Lançado no fim de 2024, o Programa de Incentivo ao Esporte (PIE) tem ampliado...

Colégio Militar de Laguna realiza formatura de fogo e premia alunos destaque

FOTOS Notisul Tempo de leitura: 3 minutos A formatura de fogo do Colégio Policial Militar Feliciano Nunes Pires – Unidade de Laguna reuniu estudantes, familiares, autoridades...